Monumento do Contestado

A guerra, as motivações concretas e o humanismo abstrato

A guerra, as motivações concretas e o humanismo abstrato

Guerras revelam o processo de decadência de uma ideia estreita de humanidade
Por Silvio Almeida

O que se pode dizer diante de uma guerra e suas tragédias?

Falar sobre a invasão do território da Ucrânia pela Rússia não é tarefa simples, mesmo para os mais experientes e sofisticados analistas.

O peso geopolítico do conflito, a velocidade das informações e a ampla aceitação por parte da mídia de reflexões maniqueístas faz com que os esforços para captar as complexidades do evento sejam muitas vezes vistos como tentativas de justificação da guerra.

A ocultação das múltiplas motivações da guerra acaba por ser uma aposta na impotência política e, por consequência, na inevitabilidade do sofrimento humano. É preciso dizer que há uma economia política que organiza este conflito, e que esta guerra é, essencialmente, contra os pobres e contra os trabalhadores. São em geral estas pessoas que se tornam refugiadas, que são levadas a atirar em estranhos e que tem de um dia para o outro suas vidas destroçadas. O que está realmente em jogo aqui é o expansionismo capitalista, a concorrência entre Estados e os intrincados conflitos de classe que ocorrem em nível nacional e internacional.

Termos como “loucura”, “descontrole” ou “senilidade” nada explicam sobre a destruição de um país e de milhares de vidas. A crueldade está em jogar no campo do irracional um evento que está diretamente ligado à lógica destrutiva da mercadoria que governa o nosso mundo, uma lógica que se ampara no poderio militar.

Todos os governos e seus respectivos líderes estão bastante cientes do horror que estão promovendo e das consequências funestas de seus atos sobre populações civis.

Tampouco é correto considerar esta guerra como mera continuidade da antiga Guerra Fria. Esta guerra é uma guerra do presente, da crise em que todos estamos metidos e das disputas geopolíticas contemporâneas. Não fossem tempos tão confusos talvez fosse desnecessário lembrar o óbvio: a Rússia não é a União Soviética, Biden não é Roosevelt e, muito menos, Putin é Lênin.

Assim como é muito atual o espetáculo de racismo e humanismo seletivo demonstrado não apenas no cenário de guerra —em que se evidencia a diferença no tratamento dado a refugiados brancos e não brancos— mas também na cobertura racista da imprensa mundial. Esta guerra, como sói acontecer em conflagrações deste tipo, destampou a fossa onde o mundo dito “civilizado” jogou alguns dos piores dejetos que a humanidade já produziu.

“Uma civilização que prefere fechar os olhos aos seus problemas mais cruciais é uma civilização moribunda”, diz Aimé Cesaire em “Discurso sobre o colonialismo”. É uma “decadence sans elegance”, tão bem refletida em grande parte da cobertura jornalística, que já não consegue disfarçar seu desprezo por pessoas que não têm olhos azuis ou a surpresa pelo fato de que sejam pessoas brancas a se matar no sagrado solo da Europa. Daí seguem-se explicações baseadas em delírios de “orientalismo”, descrições fantasiosas de “choque de civilizações” e o mais descarado racismo.

Jean-Paul Sartre, em prefácio escrito para “Condenados da Terra”, de Frantz Fanon, nos alerta que Europa e Estados Unidos (que ele chama de “monstro supereuropeu”) teriam que encarar “o inesperado espetáculo do strip-tease de seu humanismo”. Um “humanismo racista”, vez que, segundo o filósofo, “o europeu não pôde fazer-se homem senão fabricando escravos e monstros”.

Já Aimé Cesaire constata que o que não se perdoa ao nazista “não é seu crime contra o homem, mas contra o homem branco” e “o ter aplicado à Europa processos colonialistas a que só árabes da Argélia, “coolies” da Índia e negros da África estavam subordinados”.

E termina Cesaire dizendo que: “nunca o Ocidente, no próprio momento em que mais se deleita com esta palavra, esteve tão longe de poder assumir as exigências de um humanismo verdadeiro: um humanismo à medida do mundo”.

Silvio Almeida
Advogado, professor visitante da Universidade de Columbia, em Nova York, e presidente do Instituto Luiz Gama.

Fonte: FSP 04/03/2022

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