Renunciar ao ativismo para realizar um desejo pessoal: ter uma profissão. Samantha Terena decidiu travar uma batalha interna que é a de resistir ao impulso de participar das frentes pelos direitos das mulheres trans e se concentrar no estágio de técnica de enfermagem. Foram três os cursos universitários começados e não concluídos, primeiro o de administração, depois bacharelado em enfermagem e, por último, serviço social. Por conta dos muitos anos de luta, várias viagens de ônibus desde o Mato Grosso do Sul até Brasília, muitas marchas, conferências, encontros em diferentes territórios, foi impossível conciliar as agendas e estar presente em sala de aula. A perda da bolsa quando seguia para o terceiro ano de serviço social, foi a gota d´água. “No máximo estar disponível para uma consulta on-line. Me corta o coração, nem mando áudio, digito: eu não posso! Mas já estou pensando no Abril indígena”. Se a militância é uma escolha, ou não, a vocação para a liderança é fato. Em qualquer cenário, Samantha transmite seu senso de justiça e magnetiza pela honestidade e ousadia. Preparem-se os hospitais, as unidades de pronto atendimento, os centros especializados, qualquer que seja o destino, estarão com uma possível nova liderança no quadro de profissionais.
Escapar para resistir
“Somos indígenas e também somos livres para ser quem nós quisermos ser, para sermos felizes da maneira que os encantados nos fizeram e também merecemos respeito”, defende Samantha Terena durante a a 2ª Marsha Nacional pela Visibilidade Trans, em Brasília em janeiro de 2025 (Foto: Amanda Lelis | MPI).
Samantha Terena pediu de última hora para adiarmos nossa conversa para o dia seguinte. Tinha a preocupação de estar com seus trajes, ponderei que a foto seria um assunto para o nosso editor de imagens, que ficasse tranquila. Mas ela tinha razão. Quando finalmente abrimos as câmeras, me deparei com um dos retratos mais potentes da mulher brasileira atual: uma Terena com brincos de pena e um pano afro na cabeça, um Ojá, muito colorido. Apreender cada detalhe do conjunto de acessórios foi perscrutar a riqueza de uma existência que não se esforça, e não precisa se esforçar, para ser carismática. Longe dos estereótipos, aqueles adereços revelavam os marcadores sociais que expressam a potência do feminino e do nosso sincretismo brasileiro.
Ela sorria e compartilhava a alegria de ter passado o fim de semana com o marido, a sogra, em visita à mãe e ao pai na aldeia Terena. “Pude curtir meus pais sem dividir a atenção deles com meus irmãos que não estavam. Sou ciumenta”, pontuou com humor. O que a princípio poderia parecer uma declaração banal de uma filha amorosa, muito longe disso, trazia outro sabor – o da conquista.
Como mulher trans, o caminho de volta à casa paterna foi repleto de bifurcações e sem nenhum tipo de garantia. “Aos 16 anos quis sair de casa. É muita coisa. Você não se reconhece, você não se entende, sua família não te entende. Você tem um gosto diferente, um comportamento diferente, uma voz diferente. E tem um mundo lá fora que não te apoia, que não acredita em você, que nem te ouve. Ao contrário, que te violenta dentro da escola, que não te permite ter amigos. Uma opressão que te faz procurar as drogas, as ruas.”
Esse sentimento de inadequação não melhorou com a saída da pequena Anastácio, cidade do Mato Grosso do Sul que, somado a vários outros municípios da região, abriga uma das maiores populações indígenas do país. O convite para mudar foi feito por um dos irmãos, a ideia era viver em Cuiabá, capital do Mato Grosso, mas o plano não resultou devido à rejeição ao jovem afeminado. A tensão acabou provocando o retorno de Samantha para a casa dos pais. Ela tinha o objetivo de terminar os estudos e sair de vez do círculo familiar, mas voltar naquele momento foi estratégico. “Eu não tinha opção: ficava na casa deles ou passava fome. Tinha medo de não ter estudo, de me tornar uma pessoa leiga.” Este sentimento não era uma fantasia, vinha da realidade concreta que se expressa no destino de cada integrante da família: “meus pais não têm estudo, meus irmãos saíram cedo para trabalhar. Onde vivíamos, era um quarto para todo mundo. Meu pai tinha um servicinho, tínhamos poucas condições, na casa vivíamos sem geladeira, televisão, nada. Mal tínhamos o que comer.”
O contexto familiar sempre foi o do espaço urbano. Antes das retomadas –territórios recuperados dos latifundiários – as comunidades ocupavam áreas muito pequenas, sem condições sustentáveis para as famílias. “Meu pai e minha mãe saíram da aldeia para trabalhar na fazenda, ele como capataz e ela como cozinheira. Se conheceram no trabalho.”
Apesar de viverem na cidade, os quatro filhos mais velhos do casal nasceram com ajuda das parteiras, na aldeia Terena. Depois, com ampliação do serviço médico na região, o trabalho das parteiras foi proibido. Samantha e outro irmão nasceram no hospital de Anastácio. No contexto de uma família Terena, essa oscilação entre a vida urbana e a comunidade indígena sempre favoreceu a estereotipação desse grupo como “aculturados” e “índios urbanos”, afirmações que vão no sentido contrário do que o Instituto Socioambiental aponta: “a resistência de um povo que soube positivar situações adversas ligadas ao antigo contato, além de mudanças bruscas na paisagem, ecológica e social, que o poder colonial e, em seguida, o Estado brasileiro os reservou.”
Diante desse panorama, a língua Terena não fazia parte da vida das crianças que cresciam em Anastácio. “Minha mãe não falava Terena com a gente, tinha vergonha. Falava com a mãe dela, sempre que a gente ia na comunidade, e com a vovó veia, a minha bisavó. Alguma coisa, bem pouca, a gente aprendeu. Palavras como água, cachaça e uns xingamentos”, me conta rindo.
As perdas culturais confirmam a violência sistêmica a que são submetidas as comunidades indígenas, no contexto urbano brasileiro. Racialização é uma série de estigmas que produzem a necessidade de um esquecimento compulsório das práticas e costumes. O resultado desse afastamento também é recorrente: a negação da própria origem e uma adesão automática ao padrão de dominação que reforça, dentre vários valores questionáveis, o machismo estrutural. Samantha afirma sem meias palavras: “meu pai sempre foi machista. No território, homens e mulheres são machistas. Muitas delas apanham e ficam quietas, acreditam que está certo. Eu fui criada nesse leito familiar.”
De saia e sem medo de nada

Samantha Teterna foi homenageada pela Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul na Sessão Solene “Diversidade e Cidadania”, com o deputado Pedro Kemp (PT-MS) (Foto: Wagner Guimarães/ALMS- 01/07/2025 ).
Dois anos depois de retornar à casa dos pais, ela arrumou um namorado e partiu com o diploma do ensino médio. Relembra que as amigas trans e travestis a consolavam, diziam que tudo ia passar e que a família ia aceitar adiante. O movimento de partida era inevitável, ficar não era uma dentre várias alternativas. “Eu não tinha opção. Eu não tinha escolha.” Ela fala para si mesma: “você quer ser isso ou aquilo?” E constata: “eu não tive isso”. Se não sabia muito bem por onde começar, ela entendia que era necessário fazer da própria transformação uma realidade, e, mais do que o risco, prevalecia a convicção de que eram seus direitos que estavam em jogo. “Ser trans é um ato político. Antes de ser trans, eu sou indígena, é luta ou luto. Eu não tive e não tenho escolha: ou luto ou morro.”
Samantha descobriu outras trans e travestis batalhando pelos direitos, articulando associações, se organizando coletivamente. Foram muitas as referências dessas mulheres empoderadas que despertaram na jovem Terena o desejo de se engajar, aprender a se expressar em público e ocupar os espaços. “Começou por aí o ativismo. Eu nem sabia o que era ativismo, direitos humanos, simplesmente fui indo porque gostava das pessoas, muitas delas me inspiravam, como a Keila Simpson, a Jovanna Baby, a Cris Stefanny, a Bruna Benevides, a falecida Jacqueline Brasil, todas protagonistas na luta pelos direitos da nossa comunidade.”
Num tempo ainda sem celular e whatsapp, os convites para participar de mobilizações, eventos e entrevistas, surgiam no boca a boca. Amigas, amigas das amigas, convidavam para participações em encontros. Uma verdadeira inserção em rede. “Alguém dizia: tal dia você vai na rodoviária para pegar tal ônibus. Contato de outras que combinavam com outras e eu ia para Campo Grande, sozinha. Na cidade, pegava um táxi, chegava no endereço indicado e me via entrando num hotel chique, cheio de gente e eu com roupas simples, sapatinho simples. E aí me falavam: tenho um quarto reservado para você. Eu enchia os olhos e pensava, nossa!”
A família de Samantha a descobriu como protagonista dos direitos LGBTQIA+ quando sua imagem apareceu em rede nacional. Seu pai estava circulando na cidade quando a viu pela TV falando da própria história. As redes sociais, também, ganharam relevância nos últimos anos quando a sobrinha verificou, num perfil pouco usado, no qual a Terena já tinha mil seguidores. A estratégia de publicar mais fotos, vídeos, postar nos stories fez esse número multiplicar por dez. Sobretudo por conta de outra pauta fundamental na história de vida da própria Samantha, a defesa dos povos de matriz africana.
“Fiz meu santo porque, no contexto urbano, eu não tinha contato com a minha ancestralidade. Assumi a umbanda como religião, mas, também, conheci o candomblé.
Fui crescendo na militância pelos povos negros, pelos povos indígenas, defendendo as pessoas LGBTQIA+. Se era para falar, meu nome sempre era lembrado primeiro. Eu ia porque eu não tenho vergonha de me apresentar e de pegar o microfone diante de mil, cinco mil, quinhentas mil pessoas. Não estava nem aí, pegava o microfone e falava mesmo.”
A comunidade LGBTQIA+ nos quadros do governo

Coletivos, articulações e lideranças indígenas LGBTQIA+ durante a da 1ª Formação em Direitos Humanos, Justiça Climática e Incidência Política para Indígenas LGBTQIA+ , ocorrido em Belo Horizonte ,em janeiro de 2026 (Foto: Mídia Indígena).
Longe do oficialismo, Samantha reflete sobre o caminho de quem optou por não fazer parte da gestão pública e o quanto os tempos atuais implicaram numa desarticulação. “Agora, temos parentes que atuam em Brasília e eles sabem da nossa realidade, mas o governo não tem direita e não tem esquerda, eles seguem diretrizes e o que têm de verdade é muita limitação. A gente também relaxou com a mobilização.”
Muitos da sua geração e outros que vieram em seguida estão operando a máquina do governo. Os amigos de militância questionam o por que da Terena não ter um cargo publico, diante da legitimação como uma voz importante nos direitos das mulheres trans. A resposta revela uma hierarquia dentro da própria comunidade LGBTQIA +, segundo a sua avaliação, “o poder é sempre de um homem gay engravatado, inclusive no Ministério dos Povo Indígenas, nunca de uma pessoa trans. Entretanto, eles precisam das trans para construir a política para o que eles nunca experimentaram: violência, discriminação e os desafios de saúde de transição de uma trans. Eu não consigo ficar quieta, como umas gays engravatadas que se calam para manter o emprego. Nunca aceitei um cargo porque eu nunca me deixei corromper. Eu falo o que eu penso na cara da liderança, falo na cara de quem está à frente. Eu sempre fiz um ativismo independente. Como mulher trans, indígena, dona de terreiro, faço barulho. Essas pessoas vão para uma panelinha, monopolizam o poder.”
A ativista Terena considera que a desmobilização também é fruto de outra dinâmica pautada pela Internet. Nessa perspectiva, os mais jovens estão atuando nas redes sociais e muito distantes do enfrentamento no campo de batalha. E se pergunta: quem quer ir à luta?
A sexualidade no território

Jovens indígenas do povo Pankararu no ATL de 2023, em Brasília com a bandeira do movimento LGBTQIAPN+ (Foto: Ana Pessoa Mídia Ninja).
A luta pela própria integridade vai muito além de manter-se ilesa, protegida das agressões – o que já significa muito para a realidade do grupo que é o maior alvo da violência de gênero no Brasil. Integridade dentro da cosmovisão indígena, estendida aos direitos do seu povo que não merece diminuição e, sim, viver na plenitude, na inteireza da comunidade. Valores que Samantha defende como parte de uma geração que cresceu em meio aos movimentos das retomadas articulados por diferentes etnias, nas décadas de 1990 e 2000. A estratégia sempre levou ao objetivo comum: a ocupação para reivindicar seus territórios ancestrais e pressionar pela demarcação de Terras Indígenas (TIs).
Com a experiência da militância em Brasília, participando das rodas de conversa, das danças das mulheres, além de marchas e conferências da maior mobilização indígena do Brasil – o Acampamento Terra Livre (ATL), o protagonismo pela regularização das retomadas foi inevitável. “Eu fui a única trans do meu povo a participar. Tinha outras no armário, mas eu sempre fui atrevida, entendeu? Tinha medo não. Se riam na minha cara, eu perguntava: e aí? Tão rindo de quê? Mas meu histórico de militância me garantia bastante respeito das lideranças. As pessoas me viam e ficavam na dúvida: será que é homem? Será que é mulher? E não tinham coragem de me perguntar.”
Se a dúvida criava alguma distância, Samantha fazia da situação uma oportunidade para se aproximar. Se apresentava e explicava o que é uma mulher trans. Lidava com as surpresas das mulheres que perguntavam por que ela não tinha filhos e manejava o impacto que a novidade provocava em várias colegas. “De certa forma, eu acabei levando o tema da sexualidade para dentro do nosso território. Onde eu moro, ao todo, são sete aldeias e mais quatorze retomadas. É uma cidade indígena dentro de um distrito. Alguns tinham preconceito velado, mas não tinham coragem de fazer uma violência contra mim. Constataram que eu era uma pessoa séria, envolvida com as pautas, presente nas reuniões, que participava dos bloqueios da BR-262 e em outros protestos.”
Todos os esforços e mobilizações renderam frutos. Numa segunda-feira, 02 de maio de 2016, apenas dez dias antes do afastamento da presidenta Dilma Rousseff pelo processo que culminou com o impeachment, foram assinados os decretos demarcatórios. Com eles, ficaram definidos os limites de Terra Indígena Taunay-Ipégue, como sendo tradicionalmente ocupada pelo grupo indígena Terena, considerando terras indígenas com uma superfície aproximada de 33.900 hectares e perímetro também aproximado de 78 quilômetros, assim delimitada, e localizados no município de Aquidauana, vizinho à Anastácio.
Segundo Samantha, trata-se “de uma das maiores retomadas da América Latina que os não indígenas chamam de invasão”. Após muita pressão em Brasília, os Terena articularam uma ação sincronizada: um grupo levou o mapa dos etnoterritórios, com as medições e estudos antropológicos que confirmavam a existência de indígenas na área, como dado comprobatório para as autoridades na capital do país; em Aquidauana, lideranças, mulheres e crianças seguiram para o território em disputa e aguardaram pacificamente acampados a assinatura da demarcação.
Com a decisão publicada, retomaram as terras em um único dia. “Com o mapa da demarcação, nós fomos entrando e comunicando aos funcionários que estávamos fazendo a retomada do nosso território e que comunicassem aos patrões que estaríamos dispostos a uma conversa. Os supostos donos entraram com uma medida legal que garante indenização exclusivamente pelas bem-feitorias, mas não pela propriedade da terra. A gente ficou ali nos barracos, tudo pacifico. Nunca matamos gado ou entramos em conflito com funcionários. Eles entregaram de boa, tudo na paz. Conversamos, também, com a polícia federal. Tivemos muita estratégia, o presidente do Conselho, as lideranças, todos tínhamos experiência de outras retomadas, tínhamos advogados.”
Mudar o nome, montar o corpo da aldeia
A conquista marcou uma nova etapa para os Terena, primeiro na luta pelo reconhecimento das terras, com a demarcação das retomadas, e, depois, uma necessidade de desestigmatizar o que até então era considerado área de conflito. Tal caracterização impedia reivindicar, junto à prefeitura de Aquidauana, assistência básica, como segurança, saúde e alimentação.
Samantha encabeçou outra mudança: preparar a retomada Ouro Preto, que ainda levava o nome da fazenda, para a refundação de uma aldeia. “A ideia sempre foi a de proteger os idosos, as gestantes, as crianças da nossa comunidade. Garantir atendimento médico, cesta básica e mais segurança. Articulamos, fizemos reunião e decidimos que a nossa liderança ficaria como o cacique, meu pai como vice, eu como secretária, escolhemos o tesoureiro e organizamos o conselho tribal. Fizemos ata de fundação da aldeia, comunicamos as lideranças de outras aldeias, fizemos a dança de sinal dos homens, a dança das mulheres e mais um churrasco para o qual convidamos a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), a Articulação dos Povos indígenas do Brasil (APIB) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), além dos caciques de outras aldeias. Nascia a Aldeia Tarumã.”
O nome Tarumã foi uma sugestão das mulheres que participaram do primeiro acampamento localizado embaixo de um pé de Tarumã que secou, perto do mangueiro da fazenda. Se na comunidade tudo fluiu dentro das boas práticas, na burocracia do Estado, sempre necessário passar por mais um teste de resiliência e persuasão. “Tinha que mendigar na prefeitura quando diziam – ah não pode porque é área de litígio. Respondia: não mais! E mostrava os papéis. Agora, vocês terão que me atender. Tô legalizada. Aqui, o registro.”
Samantha batia na porta da sede da prefeitura e mandava seu recado, falava que era liderança da Aldeia Tarumã e queria falar com o prefeito. Na pauta, transporte para os alunos e apresentação do Cacique Jurandir. Os parentes começaram a perguntar para a Terena, como ela fez para conseguir a legalização da aldeia. “Eu explicava: mude de nome, monte o corpo da sua aldeia com cacique, vice cacique e vai na FUNAI. Tem que somente comunicar, porque eles não podem barrar nada. E faz sua festa!” Assim, ocorreu com a aldeia Tarumã, no dia 09 de março de 2024.
Terreiro de palha Omolu Oxum
A nova aldeia Tarumã abriu espaço para a primeira batida de tambor, o primeiro toque. “A comunidade ficava de longe me olhando, com medo. Pensava que eu estava fazendo maldade. Eu conseguia agregar de alguma forma através do catolicismo. A ideia era simples: se não vem na louvação à Oxóssi, vem no São Sebastião. Vai comer o mesmo churrasco, a mesma coisa. Se no 27 de setembro não pega bala de Cosme e Damião, porque é coisa do diabo, vai comer tudo no 12 de outubro, que é dia das crianças. Festa com pula-pula, bolo, um monte de saco de doce, doação de roupa e brinquedo para as crianças.”
Samantha é muito enfática ao dizer que a umbanda a tornou a pessoa que ela é hoje. Segundo a Terena, existia uma pessoa antes dela conhecer a espiritualidade e outra depois. Este encontro supriu a ausência de contato com a tradição, a falta de conhecimento da língua Terena, a ancestralidade ocultada. Prevaleceu sua devoção ao falar do santo, da mãe de cabeça, do pai, da força que rege e o encantado que a envolve. “É o ar que eu respiro, minha coragem, minha luta. Aquilo que aprendi a venerar. Sem eles não sou nada. Minha voz, minha fala. Eu tinha que louvar meu encantado e meus ancestrais. Chamei meus filhos de santo, levei os atabaques, fiz a festa na aldeia e pronto. Sou zeladora de santo. “
Ela explica que a comunidade vai para ver, com medo daquilo que não conhece. Avalia que todo indígena quando precisa vai no benzedor, mas não fala que vai. Quando está doente e o médico “não dá jeito”, também procura o terreiro, mas não quer dizer que procurou. Senão não existia terreiro. “E eu não tenho nada a ver com a vida privada deles. Iniciei com 14 anos na umbanda. Recebi meu jogo, montei a minha casa e tive meus filhos, sempre livres como o vento. Não se sentiu bem, vai embora. Exu não vai te cobrar, ele é seu! Quem tem que cuidar dele é você, eu não vou cuidar de nada, não cuido nem de mim”, diz sorrindo.
Em Anastácio, Samantha também fazia toque. “Embaixo do pé de água-pomba, fazia a gira ali mesmo, no meio da rua. E colocava os atabaques e, vinham os mendigos que comiam, bebiam e levavam a comida. Eu não tenho vergonha do toque no meio da rua e chamo o povo. Vêm meus convidados, vem quem quiser. Vem crente, gente para a gira de direita, que vai assistir a reza e tomar o passe de preto velho. Eu sirvo a comida e aviso: agora eu vou virar de banda e vai ter cerveja e quem quiser ficar que fique, porque Exu vai xingar, vai falar palavrão e quem não gosta que vá embora.
E foi numa dessas giras que apareceu Romero, recém-chegado de São Paulo, desempregado, pronto para ficar na casa da mãe, em Anastácio. Com a pandemia, as portas pareciam mais fechadas ainda, sem grandes expectativas. Um dia ele ouviu o toque na encruzilhada, como lembra Samantha: “a gente se conheceu, eu tinha feito o santo, estava saindo do meu preceito, há cinco anos atrás. Eu costumo dizer que se uma porta se fecha, eu arrebento a porta, a janela, e vou. Eu não tenho medo de nada, eu não tenho medo de ninguém. Eu não espero nada, eu faço acontecer. Eu sou assim! Desobediente e mandona, mas acredito que sou boa pessoa. Agora, ele tem trabalho.”
O que era para ser uma simples festa de despedida para Samantha seguir rumo a aldeia virou um esbarrão com um beijo roubado. “Ele é de Oxóssi, muito livre também. Eu sou de Oxum que é de paz, mas sou Oxum Opará que é de paz e de guerra.” Das várias encruzilhadas, nas várias bifurcações de uma jornada imposta pela luta e autoafirmação, nenhuma poeira ofuscou seu desejo de conquistar seus direitos, preservar os do seu povo e de reinventar uma tradição pela ancestralidade Terena e o toque do axé.
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site Amazônia Real e são de total responsabilidade do autor.
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