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Um ano de Trump: como os Estados Unidos reverteram avanços climáticos, dentro e fora do país

Um ano de Trump: como os Estados Unidos reverteram avanços climáticos, dentro e fora do país

2025 foi um ano decisivo para a política climática dos Estados Unidos. Desde que tomou posse para seu segundo mandato, Donald Trump adotou uma série de medidas abrangentes para reverter a agenda ambiental do país e se retirar de compromissos internacionais. Essas ações alteraram de forma profunda o papel dos Estados Unidos na luta global contra as mudanças climáticas – uma crise que o presidente já descreveu como uma “farsa”.

Liberação dos combustíveis fósseis

Defensor de longa data dos combustíveis fósseis que aquecem o planeta, Trump tem concentrado seus esforços em fortalecer os laços com o setor petrolífero, apesar dos inúmeros compromissos climáticos assumidos pelos Estados Unidos tanto internamente quanto em âmbito internacional. Trump se cercou de agentes estratégicos para execução de sua agenda anticlimática. A nomeação de um ex-executivo da indústria do fraturamento hidráulico para comandar o Departamento de Energia, ou mesmo cercar a Agência de Proteção Ambiental (EPA) com  lobistas dos setores químico e de combustíveis fósseis, são apenas alguns exemplos do retrocesso ambiental como parte de sua estratégia de poder.

No primeiro dia de governo, Trump declarou uma suposta “emergência energética nacional”. A decisão veio mesmo com os Estados Unidos atingindo níveis recordes de produção sob a administração anterior e desconsidera o fato de o país já estar produzindo mais petróleo do que qualquer outra nação na história. A medida permitiu ao governo reverter muitas das regulamentações ambientais da era Biden e assim abrir mais áreas para a exploração de petróleo e gás. E foi exatamente isso o que aconteceu.

A administração Trump se esforçou para maximizar o desenvolvimento de petróleo e gás no Alasca, revertendo restrições impostas durante o governo Biden sob a Reserva Nacional de Petróleo da região, de 23 milhões de hectares, e permitiu novamente que perfurações fossem realizadas no território do Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico. Agora, ele busca levar ao exterior seu lema “drill, baby drill” (“perfure, custe o que custar”), tendo recentemente anunciado planos para estender sua influência às vastas reservas de petróleo da Venezuela.

Em abril, Trump assinou uma série de decretos executivos com o objetivo de revitalizar uma indústria de carvão em declínio, acelerando concessões e simplificando processos de licenciamento para mineração de carvão em terras federais. A medida contradiz tendências globais: desde a aprovação do Acordo de Paris, em 2015, quase 60 países reduziram drasticamente seus planos de construção de usinas a carvão. Até mesmo os Estados Unidos desativaram ou anunciaram a aposentadoria de centenas de usinas desse tipo. Além de ser o combustível fóssil mais poluente, o carvão é amplamente considerado uma fonte de energia pouco competitiva e inadequada, custando significativamente mais do que fontes renováveis como a eólica e a solar.

Trump também tem atacado com frequência essas fontes renováveis, e não perde oportunidades para disseminar informações falsas sobre energia limpa. Ele já classificou turbinas eólicas como “patéticas e terríveis”, e afirmou falsamente que elas estariam matando pessoas. Além disso, insiste repetidamente que a energia eólica é “a forma mais cara de energia”, ignorando dados que demonstram que ela é significativamente mais barata do que os combustíveis fósseis, tanto na fabricação quanto na geração de eletricidade.

Um grupo de mineiros de carvão aplaude enquanto o presidente Donald Trump assina decretos executivos sobre a indústria do carvão em 8 de abril de 2025. Foto: Casa Branca/Flickr.

Como parte do plano de priorizar os combustíveis fósseis, a administração Trump bloqueou bilhões de dólares em recursos destinados a projetos de energia limpa em todo o país. Diversas ações judiciais foram movidas em resposta; muitas ainda estão em andamento, o que deixa as organizações afetadas em um limbo, e impedidas de executar seus projetos.

A administração Trump também tem atacado leis estaduais voltadas a enfrentar formas poluentes de energia, como o sistema de cap-and-trade da Califórnia e as leis de “superfund climático” adotadas em Nova York e Vermont.

Diminuindo as responsabilidades de poluidores

Trump também revogou dezenas de normas ambientais, incluindo padrões nacionais de qualidade do ar para material particulado, limites para o despejo de águas residuais por instalações de extração de petróleo e gás, além de regulamentações sobre emissões de usinas termelétricas e poluição veicular. Ele também mirou os veículos elétricos, suspendendo a liberação de recursos governamentais não utilizados que seriam destinados à instalação de estações de recarga. Era previsto um investimento de US$ 5 bilhões ao Fundo Nacional de Infraestrutura para Veículos Elétricos. Neste mês, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) anunciou que deixará de calcular os benefícios monetários das regras de controle da poluição do ar em termos de economia nos custos de saúde ou de mortes evitadas. A partir de agora, as regulamentações relativas ao material particulado fino, conhecido como PM2.5, e ao ozônio serão voltadas exclusivamente aos custos para a indústria. Em comunicado divulgado pela imprensa, a agência afirmou que “permanece absolutamente comprometida com sua missão central de proteger a saúde humana e o meio ambiente”, mas que “não estará monetizando esses impactos neste momento”. A decisão gerou fortes críticas de especialistas.

“A ideia de que a EPA não considere os benefícios para a saúde pública de suas próprias regulamentações é contrária à própria missão da agência”, afirmou Richard Revesz, diretor acadêmico do Instituto para a Integridade das Políticas Públicas da Faculdade de Direito da Universidade de Nova York

Supressão da pesquisa climática

O recuo alarmante do governo Trump em relação à ação climática teve a ciência como seu alvo direto. No último ano, sua administração apagou dados científicos e cortou bilhões de dólares em recursos destinados à pesquisa sobre o clima.

Nos primeiros meses de 2025, dezenas de milhares de servidores federais foram demitidos abruptamente de órgãos estratégicos como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a Agência de Proteção Ambiental (EPA), a Fundação Nacional de Ciência (NSF), o Serviço Florestal e a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA). Muitos desses funcionários atuavam em pesquisas climáticas e trabalhos de conservação considerados vitais, além de prestarem serviços essenciais, como previsão do tempo e monitoramento da vida silvestre.

O governo federal também sinalizou a intenção de desmontar centros de pesquisa estratégicos, incluindo o Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, sediado no Colorado, que fornece dados críticos sobre qualidade do ar, ferramentas para aumentar a segurança da aviação, estratégias de mitigação de incêndios florestais e previsões de secas, além de eventos de precipitação extrema e ciclones tropicais. Outro alvo é o Observatório de Mauna Loa, da NOAA, que desde a década de 1950 coleta dados essenciais sobre mudanças climáticas, composição atmosférica e qualidade do ar.

O Laboratório Mesa do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica em Boulder, Colorado. Foto: Wally Gobetz/Flickr.

A Casa Branca também encerrou o financiamento do Programa de Pesquisa sobre Mudanças Globais dos Estados Unidos, então responsável por produzir os relatórios climáticos mais abrangentes do país sobre os impactos do aumento das temperaturas globais. Além disso, desativou o climate.gov, principal site público da NOAA voltado à ciência climática, e extinguiu o banco de dados Billion Dollar Weather and Climate Disaster, também da NOAA, que fornecia informações vitais para equipes de emergência, para o setor de seguros e para pesquisadores planejarem esforços de recuperação e avaliarem riscos relacionados a eventos climáticos extremos.

Os cortes de gastos também se estenderam aos esforços climáticos internacionais. Em fevereiro, a administração retirou os Estados Unidos das discussões globais sobre uma próxima avaliação internacional das mudanças climáticas conduzida pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O presidente Trump também ordenou que cientistas federais da NOAA e do Programa de Pesquisa sobre Mudanças Globais dos EUA interrompessem todo o trabalho relacionado às avaliações climáticas do IPCC. Na prática, isso pôs um fim a participação americana em um dos esforços de avaliação climática mais importantes do mundo.

Recuo no cenário internacional

No início deste mês, a Casa Branca anunciou que os Estados Unidos irão se retirar de 66 organismos, convenções e tratados internacionais. Isso inclui acordos climáticos centrais, que agora são considerados “contrários aos interesses” do país. A lista abrange 35 organizações não vinculadas à ONU e 31 organismos das Nações Unidas — muitos deles responsáveis por trabalhos cruciais relacionados às mudanças climáticas. Entre eles estão o (IPCC), o mais importante órgão científico do mundo sobre o tema; a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), autoridade global que fornece orientação técnica e política para impulsionar a conservação; e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), o principal tratado global de coordenação da ação climática internacional.

O anúncio gerou fortes críticas de especialistas, líderes mundiais e da comunidade científica. Eles alertam que os Estados Unidos ficarão para trás enquanto o resto do mundo avança na transição energética, abandonando combustíveis fósseis caros e poluentes em favor de fontes renováveis mais limpas e acessíveis, como a energia solar e a eólica. A decisão foi apenas a mais recente de uma série de medidas voltadas a afastar o país de compromissos climáticos internacionais.

Ao longo do último ano, os Estados Unidos saíram do Acordo de Paris, se retiraram do conselho do Fundo de Perdas e Danos destinado a países em desenvolvimento e abandonaram a Parceria para uma Transição Energética Justa – um programa emblemático de financiamento climático global criado por países ricos para ajudar nações em desenvolvimento a abandonar o carvão. O governo Trump também inviabilizou negociações internacionais para a criação de uma taxa global sobre emissões do transporte marítimo e atuou para bloquear os diálogos por um tratado global sobre plásticos, que acabaram colapsando em agosto após a oposição dos Estados Unidos e de aliados petroestados a limites obrigatórios de produção de plástico. Pela primeira vez, os EUA também não enviaram representantes às negociações climáticas da COP30, realizadas no Brasil.

Líderes mundiais e delegados participam da sessão de abertura da 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) na Amazônia brasileira. Foto: ONU Mudança do Clima/Zô Guimarães via Flickr.

Os esforços de financiamento climático em escala nacional também foram  enfraquecidos. As contribuições ao Plano Internacional de Financiamento Climático dos EUA, criado durante o governo Biden para mobilizar instituições multilaterais e bilaterais no apoio a países em desenvolvimento em ações de mitigação e adaptação climática, foram interrompidas abruptamente. O mesmo foi feito em relação ao Fundo Verde para o Clima — onde o governo Trump cancelou um investimento antes previsto em US$ 4 bilhões destinados ao maior fundo do mundo dedicado à ação climática global —

Desmonte de programas de justiça ambiental

A administração Trump desmantelou iniciativas federais de justiça ambiental, priorizando a desregulamentação econômica em detrimento de investimentos destinados a enfrentar a poluição e a desigualdade em comunidades historicamente negligenciadas. Uma de suas ações mais significativas foi o encerramento do programa Justice40, criado para direcionar investimentos federais a comunidades desfavorecidas, mais afetadas por riscos de poluição, saneamento inadequado, impactos das mudanças climáticas e altos custos de energia.

A EPA também fechou todos os 10 escritórios regionais de justiça ambiental, que haviam sido fundamentais para lidar com problemas de poluição em comunidades de baixa renda, historicamente marginalizadas e vulneráveis. Especialistas alertaram que a medida deixaria “aqueles que vivem, trabalham, estudam e convivem próximos a indústrias poluentes, tráfego gerador de poluição atmosférica e cursos d’água e solos contaminados com pouco apoio justamente da agência responsável por fazer cumprir as leis de proteção”.

A administração trumpista também promoveu uma ampla campanha para limitar o acesso a ferramentas de dados essenciais usadas para monitorar informações ambientais, climáticas, de saúde pública e demográficas. Esses instrumentos eram fundamentais para identificar e enfrentar as necessidades de comunidades marginalizadas, deixando ativistas e pesquisadores com recursos limitados para acompanhar e combater injustiças ambientais sistêmicas.

Retrocesso nas proteções a biodiversidade

A administração Trump trabalhou para enfraquecer proteções fundamentais da Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção, que desde a década de 1970 protege plantas e animais, e é creditada por evitar a extinção de centenas de espécies. Uma das mudanças mais significativas foi a eliminação da chamada “regra geral” do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos, que concedia automaticamente proteção às espécies classificadas como “ameaçadas”.

Trump também determinou a remoção de medidas  importantes para permitir a pesca comercial em partes do Monumento Nacional Marinho do Patrimônio das Ilhas do Pacífico, uma área de pouco mais de 800 mil quilômetros quadrados, localizada a cerca de 1.200 quilômetros a oeste do Havaí. A região abriga espécies protegidas e ameaçadas, como tartarugas, baleias e focas-monge-do-Havaí, sempre foi interditada para pesca comercial devido à sua relevância ecológica. A administração argumentou que áreas marinhas protegidas colocam pescadores comerciais americanos em desvantagem, apesar de estudos demonstrarem que essas áreas beneficiam tanto os ecossistemas marinhos quanto os próprios pescadores, ao permitir a recuperação de espécies vítimas da pesca ostensiva.

Em 17 de abril de 2025, no Salão Oval, o presidente dos EUA, Donald Trump, assina uma proclamação para liberar a pesca comercial americana no Oceano Pacífico. Foto: Casa Branca/Flickr.

Este também não foi um bom período para os parques nacionais. Desde que Trump assumiu o cargo, o Serviço Nacional de Parques perdeu 24% de sua força de trabalho permanente. Segundo o New York Times, mais de 90 parques nacionais relataram problemas entre abril e julho, decorrentes de cortes de pessoal e de um congelamento nas contratações que afetou desde equipes de limpeza até guarda-parques e funcionários de centros de visitantes. Os cortes comprometeram serviços essenciais e a manutenção dos parques em um momento de aumento da visitação.

Em junho, a secretária da Agricultura, Brooke Rollins, anunciou planos para revogar uma norma da era Clinton que proíbe a construção e reconstrução de estradas e a extração de madeira em quase 59 milhões de hectares do Sistema Nacional de Florestas. A medida seguiu uma ordem executiva de março e um memorando emitido por Rollins em abril, que prepararam o terreno para um aumento significativo da exploração madeireira industrial em florestas federais. Organizações ambientalistas alertaram que atividades madeireiras e de mineração poluíram o ar e a água potável e destruiriam habitats essenciais para espécies como os condores-da-Califórnia, ursos-pardos e lobos da região de Yellowstone, além de salmões e trutas nativos do Noroeste do Pacífico e aves migratórias das florestas decíduas dos Apalaches.

*Esse texto foi originalmente publicado em Inglês. A tradução foi feita com o auxílio de Inteligência Artificial, com revisão final do jornalista Vinícius Nunes.

As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site O Eco e são de total responsabilidade do autor.
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