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Nível do Cantareira volta a subir, mas não é possível falar em recuperação

Nível do Cantareira volta a subir, mas não é possível falar em recuperação

O volume útil do sistema Cantareira voltou a subir na semana passada, depois de ficar quase dez dias abaixo de 20%. O período de seca tem preocupado especialistas, que recomendam redução no consumo da água e na pressão das torneiras.

O Cantareira é o principal dos sete mananciais que compõem o Sistema Integrado Metropolitano (SMI) e abastecem a Grande São Paulo. Nesta quarta (28), o volume útil do SMI esteve em 33,6%, enquanto o do Cantareira ficou em 21,6%.

Em comparação, no dia 28 de janeiro de 2025, o volume útil do Cantareira estava em 51% e, em 2024, em 73%.

A hidróloga Adriana Cuartas, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), alerta que o pequeno aumento não representa recuperação do sistema. Para isso, seria necessário um armazenamento acima de 50%. As chuvas da última semana ajudaram a manter o sistema estável e evitar que os níveis caíssem de forma considerável, completa.

Em resposta à reportagem, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) disse que os desafios de abastecimento na região metropolitana de São Paulo são “históricos, estruturais e amplamente conhecidos, decorrentes de um sistema complexo, altamente demandado e sujeito a eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes”. Mas que tem executado “obras estratégicas” para melhorar a segurança hídrica.

O reservatório foi prejudicado por uma baixa pluviosidade no fim de 2025 e pelo aumento da retirada d’água, diz Cuartas. Na primeira metade da estação chuvosa, que vai de outubro a dezembro, houve eventos curtos de chuva seguidos de períodos longos sem precipitação, diz nota técnica do Cemaden publicada no fim de outubro. No Sudeste, houve 50 dias sem chuva durante os três meses e, em algumas regiões, o número chegou a 60.

É o período chuvoso que abastece o Sistema Integrado Metropolitano (SMI) para que haja água na estação seca, que tem início em março. Em 30 de dezembro do ano passado, o SIM registrou seu menor volume útil, de 26,1%.

A presidente da SP Águas, Camila Viana, diz que houve uma queda no desempenho do sistema Cantareira a partir de agosto de 2025, em razão da diminuição das chuvas e da entrada da água no reservatório.

Hoje, a cidade está sob Gestão de Demanda Noturna (GDN), em que a queda na pressão nas tubulações dura 10 horas durante a noite. Segundo a Sabesp, a restrição noturna resultou na economia de 70,3 bilhões de litros de água desde agosto de 2025 até o fim de janeiro de 2026, o equivalente ao consumo mensal de 12,3 milhões de pessoas.

A GDN faz parte do sistema de gestão hídrica do estado de São Paulo, que estabelece sete faixas com gradação de restrição para economia de água a partir dos níveis de reservação dos sistemas metropolitanos.

Para a Adriana Cuartas, o período de restrição deveria ser ampliado, já que metade da estação de chuva já foi e os níveis do Cantareira permanecem baixos. “Nós não sabemos como vai ser a situação desses próximos dois meses em termos de chuvas e temperaturas, e a situação está muito crítica”, argumenta.

Imagem feita de drone mostra o baixo nível da represa de Igaratá, região de Campinas, interior de São Paulo. O sistema de abastecimento do Cantareira chegou hoje com 22% de sua capacidade em outubro de 2025, segundo site da Sabesp. Foto: Joel Silva /Fotoarena/Folhapress

Aumento da retirada

Cuartas diz que, em 2024, houve um aumento de 24% da extração da água do Cantareira em comparação com a média anual entre os anos de 2016 e 2023. Em 2025, esse crescimento foi de 30%. O Cemaden fará ainda a publicação dos números relatados pela pesquisadora.

De acordo com a Sabesp, o aumento do volume médio de captação de água foi impulsionado pelo crescimento do consumo da população, pela ampliação de números de imóveis conectados ao sistema da Sabesp – que foi de 9 milhões em 2015 para 11,8 milhões em 2025 –, bem como pelo cenário de baixa pluviosidade do ano.

A diretora-presidente da SP Águas, Camila Viana, acrescenta que as ondas de calor no final de dezembro contribuíram para o crescimento do consumo da população. “No período do Natal, realmente teve um pico de aumento [de consumo]”, lembra.

A crise de 2014 a 2016

O nível do Cantareira de 28 de janeiro de 2014, ano inicial de grande crise hídrica em São Paulo, estava um pouco maior do que o de 2026, no patamar de 22,9%. Já o do SIM estava em 39%. Naquele ano, o volume útil do Cantareira chegou a valores negativos e alcançou -22,6% em 20 de dezembro. A crise durou até 2016.

O professor do Departamento de Geografia e Planejamento da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Rodrigo Lilla Manzione, conta que o sistema Cantareira é resiliente e perde água de forma bastante lenta, mas sua recuperação também é difícil.

Ele avalia que os desafios do abastecimento da metrópole têm entre suas causas o descuido com os rios, seus entornos e sua mata ciliar. “Infelizmente, a vocação dos nossos rios vira um esgoto. A gente tem que caminhar muito ainda com saneamento, com tratamento, com a coleta de esgoto”, pondera.

O professor também afirma que a seca pode significar o início das mudanças de regime de chuva, previstas por cientistas, que já alertavam que a crise climática teria drásticas consequências nos padrões climáticos, como chuvas cada vez menos distribuídas. Mas para verificar isso “a gente ainda vai precisar acompanhar mais um tempo, pesquisar um pouco mais”, ressalta.

Camila Viana diz que, apesar de o volume do Cantareira nesta estação estar mais baixo do que em 2014, o sistema hidrológico da metrópole se tornou mais resiliente, com maior integração e com regras e limites para extração da água.

Ela também cita que obras estruturantes aumentaram a disponibilidade de água para a região metropolitana. Uma delas foi entregue em 2025, destaca a Sabesp, com a nova captação do rio Itapanhaú, que elevou em 17% o volume do Alto Tietê.

A Sabesp também disse que “está investindo mais de R$ 5 bilhões em obras de segurança e resiliência hídrica na Região Metropolitana de São Paulo até 2027, o que representa 8 mil litros de água por segundo acrescidos”.

As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site O Eco e são de total responsabilidade do autor.
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