Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Ana Mendes abre a exposição “Quem é pra ser já nasce”, em Belém

Ana Mendes abre a exposição “Quem é pra ser já nasce”, em Belém


Manaus (AM) – A relação entre as ameaças sofridas pela fotógrafa e antropóloga Ana Mendes e as mulheres do Maranhão é de identificação e aprendizado mútuo diante da violência. Em 2019, Ana foi perseguida por homens desconhecidos que estavam dentro de um carro, em São Luís, após cobrar publicamente uma postura do governo sobre ataques ao povo Akroá Gamella. Essa experiência de pânico e vulnerabilidade fez com que ela transpassasse o limite de documentarista e militante para se tornar também uma vítima de violência, o que a levou a questionar como as lideranças femininas (indígenas, quilombolas e quebradeiras de coco) conseguem manter o empoderamento e permanecer em seus territórios após sofrerem ameaças semelhantes ou piores. 

Ela buscou essas mulheres como “mestras e conselheiras” para entender “o que vem depois” do medo tremendo e como transformar essa dor em resistência.

“Eu comecei a lembrar das mulheres, principalmente das mulheres lideranças que eu já conhecia e as que eu conheci nesses anos todos de trabalho. E comecei a me questionar: como que elas faziam? Tipo, como que essas mulheres continuam na luta? Como que essas mulheres continuam dentro dos seus territórios? Como elas continuam tendo o empoderamento na sua voz? E se colocar no mundo depois de terem sofrido o que eu sofri?”, questiona a fotógrafa. 

Do resultado dessa busca nasceu a exposição “Quem é pra ser já nasce”, um trabalho que une arte, jornalismo e antropologia para retratar a subjetividade e a luta de mulheres indígenas, quilombolas e quebradeiras de coco do Maranhão. Fruto de sua pesquisa de doutorado na Universidade Federal do Pará (UFPA), a mostra será lançada neste sábado (17), na Associação Fotoativa, em Belém, e ficará em cartaz até o dia 20. 

Ana utiliza fotocolagens, vídeos e diários pessoais para explorar temas como território, medo e autocuidado, partindo das vivências de lideranças femininas ameaçadas e da própria trajetória da artista, que também enfrentou perseguições no campo. A curadoria da exposição é da fotógrafa Nay Jinknss.

Como parte da programação, Ana participa nesta quinta-feira (15) de um Café Fotográfico no Sesc Ver-o-Peso, às 18h30 (horário de Brasília), onde discutirá sua produção premiada e a relação entre sua história pessoal e a documentação de povos tradicionais na Amazônia.

As ameaças contra Ana Mendes ocorreram após ela ter ido à televisão cobrar do governo do estado uma postura em relação ao inquérito policial sobre ataques contra o povo Akroá Gamella, cuja situação ela cobria. Ela sofreu exílio forçado devido à gravidade da situação e à incapacidade de enfrentar o medo naquele momento. Ana deixou o estado do Maranhão. Em seus relatos nesta entrevista, ela menciona que o medo foi potencializado por uma ameaça direta de interrupção de seu trabalho, quando alguém sinalizou: “Eu vou te parar agora, aqui e agora!”.

“Eu pesquisava e fotografava violência e, de repente, eu percebi que eu era a pessoa também vítima de violência”, diz Ana Mendes.

Nascida em Porto Alegre (RS), mas criada em Porto Velho (RO), Ana Mendes, 40 anos, atua como fotojornalista multimídia, tendo trabalho em veículos como Repórter Brasil, Amazônia Real, Agência Pública, The Intercept Brasil e National Geographic Brasil. Fixada na Amazônia brasileira há oito anos, ela se dedica a projetos multimídia que cruzam jornalismo, arte e antropologia. 

Sua história com a fotografia começou muito cedo, influenciada por sua mãe, a jornalista Cristina Ávila. Ana Mendes relata que começou como auxiliar e “braço direito” da mãe em pautas jornalísticas de campo quando “já estava bem grandinha”, mas sua familiaridade com a câmera vem desde os cinco anos de idade. Possui uma trajetória com reconhecimento nacional e internacional, especialmente a partir de ​2019, quando venceu o Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger.

Leia a entrevista a seguir concedida remotamente por Ana Mendes ao editor de fotografia Alberto César Araújo e à subeditora de fotografia Juliana Pesqueira, ambos da Amazônia Real:

Juliana  Pesqueira – Ana, você pode falar sobre esse novo trabalho, “Quem é Pra Ser Já Nasce”? 

Ana Mendes – Esse trabalho nasce eu não sei nem bem quando. Não tenho uma data específica, porque eu acho que quando eu percebi eu já estava fazendo ele, né? Em 2019 eu fui ameaçada, fui perseguida no Maranhão, em São Luís, onde eu morava, por conta do trabalho de documentação e muito especificamente por uma situação em que eu fui para a televisão falar do meu trabalho como fotógrafa. E como esse trabalho de fotografia e militância, para mim, ele está muito misturado eu não fui só como uma fotógrafa imparcial, acabei, falando talvez mais do que eu deveria naquele momento, e cobrei uma postura do governo do estado do Maranhão a respeito do inquérito policial que na época estava correndo sobre os ataques a população Akroá Gamella, que eu cobria e cubro ainda, né.

Alberto César Araújo –  Era no governo do Flávio Dino?

Ana Mendes –  É, era o governo Flávio Dino. Mas enfim, era o primeiro ano também do governo Bolsonaro, a gente já ia entrar em momentos difíceis. E então, eu já tive a minha primeira e amarga experiência: a de ter um carro me perseguindo na cidade de São Luís durante um mês. Perseguindo não só a mim, mas também as pessoas com quem eu morava junto, enfim. Foi um momento de muita apreensão que eu me vi bastante sozinha.

E aí eu acho que comecei a tentar readequar a minha postura enquanto fotógrafa, enquanto pessoa no mundo, enquanto uma pessoa que queria lutar por certas coisas, porque no momento em que eu precisei, eu me vi muito sozinha.  Fiquei sem apoio, sem orientação, sem nenhum protocolo mínimo de segurança para acionar. Eu estava com muito medo.

Então, eu entrei num estado de pânico, num parafuso a nível pessoal da minha vida, e a nível profissional eu também pensei: ‘poxa, o que eu estou fazendo, como que esse trabalho de fotógrafa tá me colocando vulnerável?’.  Eu acho que nesse momento em que eu fui ameaçada, eu transpassei um limite ali. 

Eu pesquisava e fotografava violência e, de repente, eu percebi que eu era a pessoa também vítima de violência. E aí, de fato eu pensei em parar de fotografar, pensei em parar de fazer o que eu estava fazendo, inclusive eu saí do Maranhão por conta dessa ameaça. Eu não tive capacidade de enfrentar esse medo. E aí eu até falo que de 2019 para para cá, eu comecei a desenvolver medos que eu não tinha antes, medo de morrer, medo de avião, medo de escuro, medo de fantasma.

Quando eu acho que os anos se passaram, porque isso já faz tempo, já faz cinco anos… eu comecei a lembrar das mulheres, principalmente das mulheres lideranças que eu já conhecia, e as que eu conheci nesses anos todos de trabalho. E comecei a me questionar como que elas faziam. Tipo, como que essas mulheres continuam na luta? Como que essas mulheres continuam dentro dos seus territórios? Como que elas continuam tendo o empoderamento na sua voz e no seu se colocar no mundo depois de terem sofrido o que eu sofri? 

E aí é isso, eu senti na minha pele. E eu fiquei começando a me questionar, a minha admiração por essas mulheres que já era enorme, e sempre considerei elas como pessoas que me ensinaram muito dentro dos territórios, essa admiração cresceu mais ainda. 

Eu tinha curiosidade e um sentimento de tristeza de pensar que assim como eu, elas também estariam sofrendo psicologicamente, fisicamente, porque as coisas estão interligadas. Então, eu comecei a falar com algumas mulheres a respeito de como elas se sentiam. 

E assim nasce um pouco desse trabalho, dessa tentativa de entender, o que vem depois?, o que vem depois da gente ser ameaçada?.

O que vem depois da gente ter um medo tremendo que eu nunca tive. Porque é isso, fotojornalista destemida dentro dos territórios, e lutando por uma causa, mas de repente alguém te diz: “Eu vou te parar agora, aqui e agora!”. 

Então eu busquei essas mulheres muito como mestras, conselheiras que sempre foram, mas nessa situação muito muito mais forte.

Eu tinha perguntas, não jornalísticas para fazer para elas, mas perguntas pessoais, assim, sabe? Tipo: me conta o que  acontece aí desse lado? Desse outro lado que era o lado que eu também estava, o lado da pessoa perseguida.

Alberto César Araújo –  Quanto essa experiência influenciou o teu modo de fotografar hoje? O que mudou na Ana antes e depois dessa experiência?

Ana Mendes – Acho que vai um pouco nessa mesma linha do que eu estava dizendo, esse reconhecimento da minha própria história no meu trabalho fotográfico, porque eu sempre fotografei a mesma temática de povos, comunidades, território, e eu acho que eu finalmente entendi que a gente não fica fazendo a mesma temática por acaso, entendeu?

Esse é um tema na minha história de vida, ele é muito importante. O tema do território, ele é muito importante para mim, é óbvio que eu não sou uma pessoa de comunidade, sou uma mulher branca, né? 

E que vem de uma família, sei lá, de classe média baixa da cidade, dos centros urbanos, mas eu entendi que o território e a questão da família, porque eu entendo que eu fotografo famílias e seus territórios, é muito importante. 

Eu dou um título para esse trabalho, o título do trabalho é “Quem é para ser já nasce”.

E como eu estou dentro do trabalho, eu me forço a dizer: “e a Ana? Qual é a história da Ana que vem desde os seus antepassados ou qual é a sua trajetória que já indicava que ela seria, enfim, a pessoa que, no caso, tá ali também lutando e sendo ameaçada, porque eu estou me colocando nesse lugar equivalente.

Então me força um pouco a ver que o meu trabalho de fotografia, ele vem desenhado junto com uma trajetória pessoal. Eu estou fotografando uma temática muito importante para mim. Porque eu sou uma pessoa meio desterritorializada. 

Eu acho que vocês conhecem um pouquinho a minha história. Eu sou nômade, isso me atravessa.

Eu sou uma pessoa que eu sou filha de uma gaúcha com um paraibano que resolveram me ter em Porto Velho. Na verdade, eles resolveram namorar em Porto Velho. Aí saíram de carro, minha mãe de barrigão, era para eu nascer em São Paulo. Aí não, pode seguir viagem, aí eu fui e nasci em Porto Alegre. E com 20 dias eu saí de Porto Alegre e fui morar em Porto Velho. Então, a  coisa da territorialidade me atravessa muito. 

Eu me pergunto da onde eu sou, quem eu sou, eu me pergunto muito sobre esse histórico e quais são os meus vínculos, meus vínculos familiares. 

Então eu acho que o que mudou para mim enquanto fotógrafa é entender que quando eu tô fotografando a família dos outros, eu estou fazendo um reflexo direto com o que é importante para mim. Para mim é muito importante a coletividade, a família, a família e o território.

Eu tô falando de dores minhas ali o tempo inteiro, agora eu tô explicitamente, na verdade eu sempre estive falando de mim e eu acho que isso agora eu tenho mais noção. 

Alberto César Araújo – Tudo é autorretrato?

Ana Mendes – Tudo é autorretrato para mim. E naquelas pessoas eu estou procurando esses restos de família, e de identidade minha que eu deixei também. Tem uma das mulheres fotografadas que ela é minha madrinha de batizado mesmo, ela é minha parente assim, sabe. A Pjih-cre  Akroá Gamella (Maria Akroá Gamella).

Então assim, eu entro no território do povo Akroá Gamella, que é um povo muito especial que eu fotografo há muitos anos, e eu estou entrando ali como Ana, Ana Aninha, assim, sabe! Não é como fotógrafa, porque eu estou procurando ali, a minha madrinha que eu acabo encontrando.

Então tem uns laços de parentescos e de afinidade, de amizade, que vão se formando ali, e que também acabam fazendo com que as minhas escolhas éticas e metodológicas, se alinhem para que eu possa ter uma relação boa, honesta, justa e de paridade com todas essas pessoas que eu fotografo.

E aí os créditos, você falou dos créditos nesse trabalho, para mim, eu gostaria muito de colocar essa minha madrinha, como eu estava falando um pouco de questões de bastidores aqui para vocês, eu gostaria muito de colocar ela como coautora desse projeto, porque ela é uma pessoa que desde o dia zero em que eu fui ameaçada, ela era a pessoa que estava do meu lado, olhando no fundo do meu olho e dizendo: “Você tá com medo de quê?Você está com medo de quê? Não tenha medo. Você vai fugir da sua sombra?”. Ela dizia para mim.

Ela é uma pessoa que está desde o começo me orientando e me ensinando a ser corajosa, ou pelo menos poder erguer a minha voz nesses momentos todos.

E o título do trabalho também é uma frase dela, assim, que da entrevista que eu fiz com ela, mas eu estou, pelo menos por enquanto, eu estou colocando ela como orientadora neste trabalho. 

Essa minha madrinha, Pjih-cre  Akroá Gamella, eu gostaria muito de colocá-la como coautora desse trabalho, mas eu não quero ser leviana também de colocar uma pessoa indígena como coautora de um trabalho tão pessoal, porque eu estou colocando os meus diários que eu escrevo há anos. Eu estou colocando esses diários a público, nessa necessidade mesmo de me expor e de falar,  desses medos,  desses sentimentos. 

Então, por hora, eu estou colocando o Pjih-cre como uma orientadora e assistente de campo, porque ela também foi parte da equipe deste trabalho. A equipe desse trabalho é eu (Ana Mendes), Nayara Jinknss, que assumiu também a curadoria do trabalho, mas também esteve em campo comigo e a  Pjih-cre.

Elas dividiram o trabalho de campo, elas visitaram outras mulheres, a  Pjih-cre visitou outras mulheres, esse também foi muito especial.

Alberto César Araújo Qual a importância, hoje, de desenvolver um trabalho de fotografia documental colaborativa, como o que você realiza com lideranças mulheres do Maranhão, e de unir esse trabalho autoral à pesquisa acadêmica?

Ana Mendes – Esse trabalho é isso eu me coloco em frente às câmeras, o que para mim é super complicado e é até me ver, me causa um pouco de vergonha. Eu demorei para admitir que esse trabalho ia acontecer, ia sair, inclusive ele faz parte da minha pesquisa acadêmica, mas eu entrei no doutorado fazendo uma proposta de projeto, e aí eu troquei, eu acho que troquei duas vezes.

O meu trabalho de doutorado no início não tinha a ver com isso. Porque eu estava fugindo de fazer essa essa virada, porque a gente que é jornalista e eu também venho das ciências sociais, a gente tem um pouco essa ideia, essa percepção que na verdade não é verdadeira de que a gente não tá falando da gente, né?. Que a gente tá escondida atrás da câmera, de que a gente tá escondida atrás do texto. 

E na verdade eu já entendi que o tempo todo, em todos os meus trabalhos, eu tô sempre falando de mim, mas nesse especialmente, eu tô usando diários e aí entra um pouco a pesquisa de doutorado, eu tô usando diários em primeira pessoa, eu tô me fotografando e fazendo esse relato, que é bem bem pessoal, e assim, ainda me causa um estranhamento.

Alberto César Araújo – E essa estética da colagem, pode falar um pouco ?

Ana Mendes – Eu acho que eu quis me dar essa liberdade de poder fugir da pesquisa documental ou jornalística. Esse é um trabalho que não vem com dados e informações dos territórios, números ou ou informações que sejam estatísticas. É um trabalho que ele tem um pouco esse desejo de ser um transbordamento de sentimentos.

Então, eu junto os territórios em uma mesma colagem, é para falar desse sentimento comum que perpassa todas as mulheres em todos esses territórios que os problemas se repetem, é o Babaçu de um território com a monocultura do outro território, a linha de ferro da Vale que atravessa o estado do Maranhão inteiro, interligando todos os problemas. A linha da Vale é uma costura horrorosa, é a costura da morte no estado do Maranhão. Eu fiz dois tipos de colagem, a colagem da natureza morta e a colagem da natureza viva. A colagem da natureza morta é a monocultura que sobrepõe com o trem da Vale, que sobrepõe com o foguete que querem lançar de Alcântara, que nunca conseguem lançar esse foguete. Removeram um monte de comunidade, e Alcântara é uma das comunidades que está nesse trabalho. Então, a colagem sobrepõe as histórias das mulheres todas,e sobrepõe também o afeto e o carinho que elas têm pelos territórios. 

O Maranhão ocupa o topo do ranking de mortes de campo, ao lado de estados como o Pará, Rondônia e Mato Grosso. Muitas das lideranças ameaçadas/assassinadas são mulheres que defendem seus territórios com seu próprio corpo. Esse trabalho tem o foco nelas: tentando entender a trajetória e vida de 10 mulheres que sempre estiveram na linha de frente. “Quem é pra ser já nasce”, pesquisa de doutorado de Ana Mendes na Pós Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará. O projeto foi contemplado também pela Funarte, no 17o. Premio Marc Ferrez de Fotografia.
Foto colagens do trabalho “Quem é pra ser já nasce”, de Ana Mendes, com curadoria de Nay Jinknss, que estará na exposição na Fotoativa, em Belém.

Alberto César AraújoOlha só, pensando aqui que a ferrovia é a parte física dessa história, que interliga as protagonistas dessas histórias todas.  E sabendo que vai rolar uma mesa com a Paula Sampaio no Sesc Ver-O-Peso…. me lembrei do projeto da Paula, o “Antônios e Candidas têm sonhos de sorte”  que se passa na rodovia Transamazônica e na época que foi feito e apresentado, com todo o conceito de multimídia, era feito com vídeos, fotos, instalações, e trilha, quase como se fosse um filme de cinema. Aí, eu queria que você falasse um pouco dessa parte de multilinguagem da exposição.

Ana Mendes –  Pois é, a parte de vídeo eu acho que ela é muito muito importante, mas ela só tá acontecendo por causa da presença da Nayara. Eu tenho dito que o vídeo é o texto curatorial da exposição, a Nayara foi minha assistente em campo, e é a minha companheira de vida e de trabalho. 

Ela esteve na maioria dos trabalhos de campo, a gente foi em sete territórios.  Ela esteve em cinco e minha madrinha esteve em dois territórios junto comigo. Então a Nayara filmou e acompanhou as entrevistas, e ela tá dando o tom dela nisso.

É um trabalho dividido com os olhares de outras pessoas, que estão assinando autoralmente também. 

A Nayara foi em campo comigo fazia menos de dois meses que a mãe dela tinha morrido de câncer. A minha sogra faleceu e a gente saiu para fazer esse trabalho e as duas mulheres homenageadas neste trabalho, o trabalho tem 10 mulheres, mas duas delas já morreram, elas morreram de câncer.

Então a gente teve momentos em campo que foi doído, foi  uma coisa pesada, foi uma coisa muitos sentimentos compartilhados.

A Nayara estar em campo para mim foi fundamental, porque medo tem sido uma palavra que tem me acompanhado neste trabalho. Eu nunca nunca pisei com tanto medo nos territórios. 

Eu tinha medo porque eu precisava falar de mim. Eu tinha medo porque eu não tinha roteiro, e eu queria fugir do roteiro jornalístico, então me dava uma ansiedade. 

Eu tinha medo do que estava por vir, e a presença da Nayara foi fundamental para me dar um chão, ela viveu tudo com muita presença e acabou que a pilha de fazer o filme é dela, a vontade de fazer o filme é dela. Inclusive ela tá aqui no quarto editando o filme maior, a gente soltou um teaser e ela tá editando o filme maior.

Juliana Pesqueira –  Você relatou alguns suportes que você teve para ajudar nessas reflexões como seus diários, mas o que nessa volta ao território se somou, como, por exemplo, sua espiritualidade? 

Ana Mendes – Acho que isso sempre esteve presente. Minha madrinha (Pjih-cre Akroá- Gamella) me dá muita bronca, porque ela diz que eu não cumpro as minhas as minhas minhas tarefinhas espirituais de proteção, de acender as minhas velhinhas.

E tem sempre essa reafirmação por parte dela e das pessoas que me acompanham que são mestras de dentro dos territórios de que a espiritualidade tá do meu lado, de que eu sou uma pessoa muito bem acompanhada, e eu acho que, tipo, só fugiu a pergunta, na verdade. Fugiu a minha linha de raciocínio.

Eu acho que sempre esteve presente essa coisa, da espiritualidade dentro dos meus trampos. E agora é um é um reforço mesmo, de que eu tô acompanhada, de que eles estão comigo. 

Juliana Pesqueira – Vi um vídeo, acho que ano passado, talvez, e que você fala das mulheres que sonham com as ervas e aí elas vão caminhar e aí elas produzem essas essas garrafadas, você poderia falar um pouco sobre?

Ana Mendes- Nossa, foi bem esse ponto que eu ia falar alguma coisa dos sonhos.

Que eu sempre chego nos territórios e sonho os territórios, e aí isso tá lá escondidinho no caderno de campo. Eu tô lá sonhando, eu sonho o lugar. Eu digo que eu sonho o território, eu sonho as pessoas.

Eu sempre tive isso junto comigo, as pessoas que me conhecem de dentro dos territórios reafirmam essa proteção, e esse passar autorizado dentro dos territórios, eu estou autorizada não só pelas pessoas, mas pela encantaria do lugar também. Só que nesse trabalho eu finalmente deixo isso vir à tona como uma coisa que faz parte da narrativa.

Então os meus diários vão ser publicados não agora, porque esse é um trabalho mais longo, e que tem a ver com o trabalho da defesa do doutorado, que é a minha tese. 

Então nos meus diários, estão lá os sonhos que eu vou tendo nesses territórios como mensagens do território para mim, das pessoas do território encarnadas e encantas. 

Então tem sim essa presença muito forte de coisas que não tão palpáveis e não tão visíveis no meu trabalho como um todo, mas agora admitidas ali colocadas também como uma peça importante para contar as histórias.

Tem um sonho específico que eu vou contar para vocês. Está lá nos diários, mas que não está na exposição especificamente. Foi no território da dona Adriana.

Dona Adriana mora em Açailândia, num assentamento que já é um assentamento homologado pelo Incra há alguns anos. E esse assentamento tá sendo comido pela monocultura. Antes eles tinham o problema do trem da Vale, que passa assim a pouquíssimos metros  da casa da dona Adriana e de outras pessoas da comunidade, agora eles estão com problema da monocultura, que tá chegando e comendo partes deste território que já é um território decretado e já é deles.

Na primeira noite que eu dormi, normalmente os sonhos também acontecem na primeira noite. Na primeira noite que eu dormi nesse território, eu acordei com o trem da Vale passando a 10 metros da minha cama, e aí foi aquele susto enorme, sabe quando a gente acorda com um trem passando na beirada da casa eu acordei espantada, a casa toda tremendo e eu fui dormir praguejando assim:  “A Vale, que absurdo como é que as pessoas vivem dentro das suas casas”, mas eu estava ali sonolenta e aí eu caí no sono. E então eu sonhei essa noite com um vale de sal, um vale de sal assim, que era infinito, eram montanhas de sal, sal, sal, e aqueles sonhos mais verdadeiros são aqueles que tu sente uma presença… E eu sentia o cheiro de sal no ambiente.

E aí eu acordei e contei para a dona Adriana, falei: “Eu tive um sonho de um vale de sal e tal”. E aí ela falou: “Que bom, né, minha filha, sal é muito bom, sal é proteção”. 

Esse símbolo muito forte mesmo do sal que quando precisa tirar coisas ruins do seu corpo, você toma um banho de sal. Joga sal pelo canto da casa. Então, sinto e sei que nesse trabalho eu também fui muito protegida, tá aí um sonho para contar, que eu tinha um vale de sal, não era o trem da Vale, era o vale de sal para proteger os nossos passos aí nesse nesse projeto todo.

Alberto César Araújo – Que bom, é a primeira vez que eu estou conversando com alguém que fala sobre isso abertamente. Sobre essa parte sensitiva da história. É a primeira vez. Parabéns pela coragem de falar. Pois, para pisar no território indígena tem que se ter o mínimo de conhecimento daquela cosmologia e respeitar isso. Pois seres “encantados”, ou “espirituais” ou como cada povo se expressa sobre isso, eles existem. A gente tem que pedir permissão mesmo. 

Ana Mendes – Existe. Existe demais, e a gente  precisa abandonar um pouco essa cabeça embranquecida, eu acho também que a gente precisa parar de buscar justificativa para as coisas que são ignorância nossa. Não entender essas mensagens que chegam assim.

É muita ignorância nossa, prepotência chegar nos territórios. Eu passo mal em território, aí eu falo para minha madrinha: “ah, eu acho que eu não tomei café da manhã”. Aí ela diz: “é, não tomou o café da manhã, sei”. Aí eu:  “ah não, acho que é porque eu tô com pouco ferro, eu tô um pouco anêmica”. Minha madrinha: “ah, tá bom Ana”.  

Então tá, não, tá sempre achando uma desculpa para não entender que você tá com os dois pés aqui, e tá sentindo tá sentindo esse território, né?

Alberto César Araújo – Ana, antes de a gente terminar, conta desde quando tu começastes na fotografia, porque se interessou pela fotografia, o teu início mesmo, se tu consegue ver, uma conexão com aquele início da fotografia com esse momento que tu tá hoje, da tua carreira. Já quase doutora e aí tu voltar lá naquela menina com uma câmera e uma lente? 

Ana Mendes –  A minha história como fotógrafa tem a ver com a minha mãe. A minha mãe (a jornalista Cristina Ávila) me enfiou uma câmera na mão. Quando eu era muito pequena, tenho uma fotografia que eu tinha cinco anos de idade e eu tô com uma câmerazinha pequenininha, assim. E essa câmera, eu lavei ela junto com as minhas bonecas, porque a câmera estava suja, assim.

Então, eu não sabia nem o que era uma câmera e a minha mãe estava escrevendo lá no meu destino, eu acho que eu ia ser fotógrafa. Então é este jornalístico de dentro de casa que eu vi com ela, ele acaba moldando muito assim.

Mas, por outro lado, eu acho que eu tenho uma que hoje em dia eu consigo admitir, eu tenho uma necessidade artística assim de uma de uma expressão artística que a fotografia foi um caminho assim, sabe? E o jornalismo, o texto jornalístico, ele trabalha muito com informações objetivas, né? Óbvio, com o recorte do jornalista e tal.

Mas a fotografia é como uma ferramenta de experimentação. Eu acho que quando eu comecei, eu era ali o braço direito da minha mãe, eu saía para fazer pauta com a minha mãe, assim, jornalista no perrengue, que ela fazia foto, fazia texto, aí ela falou: “Tu já tá bem grandinha, vem cá. Faz aí umas fotos para mim, porque eu não tô conseguindo fazer o texto e a foto ao mesmo tempo”. Então, eu servi um pouco como uma auxiliar dela.

Só que hoje em dia eu acho que é isso assim. A minha expressão se mistura com outras artes ali, e o jornalismo é uma ponta, é uma beira ali, sabe? Acho que no começo era um pouco e tinha mais esse caráter informativo e hoje em dia eu estou conseguindo fazer isso. Deixa eu falar de mim aqui, falar de sentimentos a partir dessa ferramenta aqui. 


Programação:

Exposição fotográfica — “Quem é pra ser já nasce”

Abertura: 17 de janeiro, às 10h

Período: 17 de janeiro a 20 de fevereiro de 2026

Onde: Associação Fotoativa – Praça das Mercês, 19, Campina, Belém (PA)

Funcionamento: terça a sábado, no período da tarde

Entrada gratuita

Café Fotográfico:

Onde: Sesc Ver-o-Peso – Blvd. Castilhos França, 522/523, Campina

Quando: 15 de janeiro, às 18h30

Entrada gratuita

Realização: Associação Fotoativa


Republique nossos conteúdos: Os textos, fotografias e vídeos produzidos pela equipe da agência Amazônia Real estão licenciados com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional e podem ser republicados na mídia: jornais impressos, revistas, sites, blogs, livros didáticos e de literatura; com o crédito do autor e da agência Amazônia Real. Fotografias cedidas ou produzidas por outros veículos e organizações não atendem a essa licença.


As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site Amazônia Real e são de total responsabilidade do autor.
Ver post do Autor

Postes Recentes