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ToggleEm defesa de Flávio Bolsonaro, registre-se que ele falou pouco sobre meio ambiente e clima durante sua carreira política. Mas que falas! Todas as vezes que abriu a boca para tratar do tema, o candidato do PL à Presidência da República distorceu a ciência, selecionou dados, exagerou ou simplesmente mentiu. Prova, assim, que é um legítimo herdeiro de Jair Messias Bolsonaro, cujo discurso ambiental recheado de “fatos alternativos” o tornou freguês deste Fakebook.eco durante seu governo.
Bolsonaro, o filho, nega o aquecimento global, como o pai. Também como o pai, já serviu-se vastamente das estatísticas “criativas” sobre uso da terra propaladas pelo agrônomo Evaristo de Miranda para insinuar que o Brasil protege demais suas florestas (quando, na verdade, somos o país que mais desmata). Juntamente com o acreano Márcio Bittar, seu parceiro no projeto de lei que tentou acabar com a reserva legal no país, Flávio Bolsonaro já escreveu artigo dizendo que a Terra está resfriando e que os EUA são ricos porque desmataram mais e usam mais terras agrícolas do que o Brasil.
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Seriam afirmações quase engraçadas, não viessem de um homem que tem chance real de ser eleito Presidente da República em menos de um mês. A equipe do Fakebook.eco verificou falas de Flávio da tribuna do Senado, entrevistas e escritos sobre meio ambiente, para que o eleitor tenha pelo menos a chance de saber o que o candidato pensa a respeito do tema. Leia a seguir.
“O que existe são eventos climáticos extremos. Tem épocas cíclicas que faz mais calor, tem épocas que faz mais frio, tem épocas que chove mais, e não acho que isso tem a ver diretamente só com a influência humana no meio ambiente.” Sabatina no Jornal Nacional, agosto de 2026
“Basta pesquisar para saber que o homem é capaz de alterar o clima local, mas, não o clima global. Houve momentos em que a produção dos homens era diminuta e o mundo, mais quente. Apesar do aumento de emissão de CO2, informam os cientistas, o mundo está passando por um resfriamento global.” Artigo com Márcio Bittar, abril de 2019
FALSO
A Terra está esquentando consistentemente ao longo do último século. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, o aquecimento observado no mundo foi de 1,3oC desde 1850. Cada uma das últimas quatro décadas foi sucessivamente mais quente que a anterior. Em 2024, a Terra ultrapassou o aquecimento médio de 1,5oC. Ainda segundo o IPCC, o aquecimento observado hoje não tem precedente em mais de 2.000 anos e o período desde 1850 é o mais quente para o mesmo intervalo de tempo em 100 mil anos. O painel também afirma que a humanidade é provavelmente responsável por 98% do aquecimento observado.

“A melhor forma que nós temos de proteger o meio ambiente é oferecer um saneamento básico para a população e isso impacta, inclusive, na saúde” Sabatina no Jornal Nacional – 28 de agosto de 2026)
FALSO
Ao ser questionado sobre as mudanças climáticas, Flávio Bolsonaro citou o saneamento básico como a melhor forma de proteger o meio ambiente. A resposta é desinformativa, pois o setor de resíduos, que inclui esgoto e lixo, não é o principal responsável pelas emissões de gases de efeito estufa, que pioram as mudanças climáticas. No Brasil, esse setor foi responsável por 5% das emissões em 2024. À frente, aparecem mudança de uso da terra, que inclui o desmatamento, com 42%; agropecuária, com 29%; e energia, que inclui o uso de combustíveis fósseis, com 20%. Globalmente, o setor de energia lidera as emissões respondendo por quase três quartos das emissões de todo o planeta, segundo dados de 2023. Em seguida, aparecem agricultura e processos industriais.
“Eu pergunto: o que está acontecendo no Rio Grande do Sul tem relação com emissão de carbono na atmosfera ou tem relação com o zoneamento urbano de todas as cidades impactadas? Será que o que está acontecendo agora é porque emitimos mais carbono na atmosfera do que emitia-se em 1941? Não. A realidade é que cidades foram construídas, [gerando] mais asfalto, mais cimento, prédios, menos áreas de absorção de água nessa área que já é propícia a alagamentos. É o crescimento urbano desordenado.” Discurso no Plenário do Senado – 14 de maio de 2024)
FALSO
Bolsonaro engana ao dizer que as chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024 causaram inundações somente por problemas de crescimento e zoneamento urbano. Pesquisadores da Rede Mundial de Atribuição publicaram um estudo que concluiu que as chuvas extremas se tornaram pelo menos duas vezes mais prováveis por conta das mudanças climáticas. A pesquisa também concluiu que o aquecimento global deixou as chuvas entre 6% e 9% mais intensas no estado.
Além disso, em 2015, o estudo “Brasil 2040: cenários e alternativas de adaptação à mudança do clima”, publicado pelo governo federal, apontou que o sul da América do Sul, em especial a bacia do Prata, onde está localizado o Rio Grande do Sul, poderia registrar chuvas mais intensas e prolongadas à medida que o aquecimento global avançasse. Há consenso científico de que as mudanças climáticas podem aumentar a intensidade e frequência de eventos climáticos extremos, assim como de que o aquecimento global atual é causado principalmente pelas atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis, incluindo o petróleo, e o desmatamento de florestas, como a Amazônia.
“Chegam a propagar que florestas geram chuvas, afrontando o conhecimento bem estabelecido do ciclo da água”. Artigo com Márcio Bittar, abril de 2019.
FALACIOSO
Bolsonaro e Bittar aplicam aqui a técnica retórica conhecida como “espantalho”, que consiste em caricaturar uma proposição para derrubá-la na sequência. Florestas não criam chuva sozinhas, mas ajudam muito a produzi-la. Afinal, as árvores puxam água do solo e devolvem boa parte dela à atmosfera na forma de vapor. Depois, essa umidade ajuda a formar nuvens e pode voltar como chuva sobre a própria floresta ou bem longe dela. Outra pesquisa estimou que mais da metade da redução das chuvas no sul da Amazônia, entre 1982 e 2016, esteve ligada ao desmatamento e à perda da reciclagem de umidade. A afirmação de que as florestas (especificamente na Amazônia) geram chuvas decorre de ciência bem estabelecida desde a década de 1970, quando estudos pioneiros do ecólogo paulista Enéas Salati mostraram que uma molécula de água é “reciclada” até cinco vezes na Amazônia: a floresta, pela evapotranspiração, envia a umidade que recebe do Atlântico para o sul-sudeste. Por essa razão, o desmatamento afeta o ciclo da chuva.
Os dados do CAR são confiáveis e mostram que existem 1.871 unidades de conservação, ocupando uma área de 154.433.280 ha, ou, 18% do território nacional. As terras indígenas ocupam 117.956.054 ha em 600 unidades que correspondem a 14% das terras brasileiras. Em áreas protegidas, como reza a ONU (unidades de conservação e terras indígenas), há uma área de 257.257.508 ha, ou, 30,2% do país. Justificativa do Projeto de Lei nº 2362/2019, pelo fim da Reserva Legal em propriedades rurais, coautoria com Márcio Bittar, página 3.
SIM, MAS
O país de fato tem cerca de 30% de seu território em áreas protegidas, quando somadas as unidades de conservação e Terras Indígenas. A fonte dos dados, no entanto, não é o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e os números não são como os apresentados pelo senador. O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima registra, sem descontar sobreposições, 3.576 unidades de conservação, em todas as categorias, abrangendo cerca de 165,2 milhões de hectares continentais, equivalentes a 19,41% do território nacional. No entanto, há imensa desigualdade nessa proporção entre os biomas: enquanto a Amazônia tem 45% de seu território protegido (o dado bruto inclui sobreposições entre as áreas protegidas, portanto, precisa ser lido com cuidado), a Mata Atlântica e a Caatinga têm menos de 4%, o Cerrado tem 7%, o Pantanal tem 6% e o Pampa tem menos de 1%, segundo dados do MapBiomas. Já a Funai registra 657 Terras Indígenas, abrigadas em 118 milhões de hectares, o que corresponde a 13,9% do território nacional.
Dados internacionais mostram que, por exemplo, a Austrália protege 19,2% do seu território, os Estados Unidos preservam 13%, e o Canadá 9,7%. Somente a área protegida no Brasil, segundo os critérios da ONU, equivale à superfície de 15 países europeus. Justificativa do Projeto de Lei nº 2362/2019, pelo fim da Reserva Legal em propriedades rurais, coautoria com Márcio Bittar, página 3.
SIM, MAS
Essa afirmação esconde mais do que informa. Primeiro, é um clássico exemplo de cherry-picking, ou seleção de observações, no qual dados que interessam a um discurso são pinçados em detrimento de outros. Embora esses três países desenvolvidos tenham menos área formalmente protegida que o Brasil, há outros 33 países com mais área protegida que o nosso, incluindo a Alemanha (38,4%), o Congo (40%) e a Venezuela (54%). Segundo, embora o Canadá tenha formalmente pouca proteção terrestre [13%, não 9,7%, como disse Flávio], 11,4% são áreas marinhas protegidas e 40% (2,6 milhões de quilômetros quadrados, ou meia Amazônia) estão sob “proteção passiva”, pois situam-se na tundra ártica. O Grande Deserto Australiano tem mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados, também sob proteção passiva.
Os dados do CAR, portanto, mostram que 66,3% das terras do Brasil são áreas destinadas à vegetação protegida e preservada, ou seja, unidades de conservação, terras indígenas, assentamentos rurais, quilombolas, áreas militares, áreas de preservação permanente nos imóveis rurais e terras devolutas. Dada a realidade, é preciso enfatizar: dois terços do território nacional são dedicados à preservação e proteção do meio ambiente. Justificativa do Projeto de Lei nº 2362/2019, pelo fim da Reserva Legal em propriedades rurais, coautoria com Márcio Bittar, página 4.
FALACIOSO
De acordo com o Mapbiomas, o Brasil tem cerca de 65% de seu território coberto por vegetação nativa, mas essa parcela não está totalmente preservada: 11% já queimou ao menos uma vez nas últimas três décadas, e outros 9% foram desmatados pelo menos uma vez no mesmo período. Entre os biomas brasileiros, a Mata Atlântica foi reduzida a 12% de sua extensão original, o Cerrado já perdeu metade de sua cobertura e a Amazônia teve 20% de sua floresta destruída em apenas 50 anos. Além disso, também de acordo com o Mapbiomas, cerca de metade (224 milhões de hectares) da vegetação nativa do país está em propriedades privadas. Na Amazônia, 20% dela pode ser desmatada legalmente. No Cerrado, de 65% a 80%. Portanto, não são áreas “dedicadas à preservação”. Somar diferentes categorias territoriais e concluir que 66,3% do Brasil é destinado à preservação serve apenas para confundir cobertura vegetal, proteção legal e uso da terra.
Os Estados Unidos, a nação mais rica do planeta, utilizam 74,3% do seu território para a agropecuária, 5,8% são ocupados por cidades e infraestrutura e 19,9% são dedicados à proteção e preservação da vegetação nativa. Em outros termos, enquanto os brasileiros usam menos de um terço do território em produção agropecuária, os Estados Unidos utilizam quase 75%. Eis uma das razões que (sic) o trabalhador americano é mais rico e próspero. O PIB per capita brasileiro é de menos de 15,000 dólares e o dos Estados Unidos de cerca de 59.000 dólares. Justificativa do Projeto de Lei nº 2362/2019, pelo fim da Reserva Legal em propriedades rurais, coautoria com Márcio Bittar, página 4.
FALSO
Primeiro, é simplesmente mentira que os Estados Unidos usam 74% de seu território para agropecuária. Segundo a FAO, considerando terras aráveis, pastagens e prados permanentes (mesmo naturais), a proporção na verdade é 46%. Segundo, o trabalhador americano é mais rico que o brasileiro porque os EUA são a maior economia do mundo. O setor de serviços, que inclui tecnologia e imóveis, responde por cerca de 80% do PIB americano, segundo a plataforma Our World in Data. A agropecuária responde por apenas 0,8%. Se foram somados agricultura, alimentação e setores relacionados, a participação chega a 5,5%
*Aldem Bourscheit, Priscila Pacheco, Roberto Kaz, Claudio Angelo e Cristiane Prizibisczki
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site O Eco e são de total responsabilidade do autor.
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