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Com avanço dos incêndios, Amazonas pede socorro a Lula 

Com avanço dos incêndios, Amazonas pede socorro a Lula

Manaus (AM) – As queimadas e os incêndios florestais que atingem municípios amazonenses e os péssimos índices da qualidade do ar em Manaus, provocaram o governador tampão e candidato ao governo do Amazonas nas próximas eleições, Roberto Cidade Filho (União Brasil), a pedir socorro ao governo do presidente Lula. O pedido é para reforçar o combate ao fogo, com envio de equipes de bombeiros de outros estados para os muncípios amazonense que não têm brigadas. Conforme confirmou a Amazônia Real junto ao Ministério do Meio Ambiente, o pedido de Cidade ao governo federal foi enviado na quarta-feira (23) ao Planalto.

“É uma questão de Estado, não é o governador Roberto Cidade ou vice Serafim [Corrêa]. A gente tem que estar fazendo o nosso papel”, declarou nesta quinta-feira (24) o governador ao jornal A Crítica ao ser questionado do pedido de ajuda ao governo federal.

Deputado estadual e ex-presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas (período de 2019 a 2026), Roberto Cidade Filho assumiu o governo do Amazonas no dia 5 de abril, interinamente, no lugar do bolsonarista Wilson Lima (União), que renunciou para concorrer ao Senado nas eleições de 4 de outubro, junto com o vice-governador Tadeu de Souza. Cidade foi empossado como governador definitivo em 4 de maio, após vencer a eleição indireta realizada pela Assembleia para o mandato-tampão até janeiro de 2027. Em nível nacional, no primeiro turno, o partido União optou pela neutralidade nas eleições presidenciais.

Após acompanhar uma ação de rescaldo do Corpo de Bombeiros as chamas de uma “queimada criminosa” em Iranduba, a 38 quilômetros em linha reta de Manaus, Roberto Cidade disse ao jornal A Crítica que “o Estado precisa de apoio federal tanto para enfrentar os incêndios quanto para lidar com a estiagem que atinge municípios do interior.”

Na entrevista, Cidade afirmou que “o Amazonas já registrou mais de 3 mil focos de incêndio neste ano”. Segundo ele, “o Estado ampliou a estrutura do Corpo de Bombeiros de 11 para 25 bases [em municípios] e conta atualmente com mais de mil homens e mulheres preparados para atuar no combate ao fogo”. O Amazonas tem 62 municípios, contando com a capital, então faltam brigadas em 37.

Os dados dos focos de queimadas e de incêndio no Amazonas informados pelo governador são imprecisos. Como publicou a Amazônia Real, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no acumulado do ano de 2026, o Amazonas soma 5,7 mil focos de queimadas, número 80% superior aos 3.113 registrados durante todo o ano de 2025.

Dados atualizados do INPE apontam que são 3.365 focos de calor no Amazonas entre o dia 1º a 24 de setembro deste ano. Se comparado ao mesmo período do ano passado, quando foram registrados 942 focos, o aumento é de 256,58% – um recorde.

O pedido de Roberto Cidade ao governo Lula acontece após a destinação de recursos do Fundo Amazônia para o fortalecimento das estruturas de combate ao fogo na Amazônia Legal, como equipes de bombeiros, aprovada em 2024. O fundo bilionário é financiado por países doadores, como a Noruega e a Alemanha, e gerenciado pelo BNDES no no Brasil

Em maio, o Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo informou que acompanhava, junto aos estados, a aplicação dos R$ 521 milhões destinados aos corpos de bombeiros militares em toda a região da Amazônia Legal, do Cerrado e do Pantanal.

Cada um dos nove estados da Amazônia Legal, incluindo o Amazonas, recebeu R$ 45 milhões em recursos não reembolsáveis, voltados ao reaparelhamento e à prevenção e combate às queimadas durante a temporada de 2026.

Em nota enviada à Amazônia Real nesta quinta-feira (24), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) confirmou que o governador Roberto Cidade formalizou na quarta-feira (23) o pedido de apoio federal para reforçar a resposta aos incêndios nos municípios de Novo Aripuanã, Careiro da Várzea, Autazes, Manaquiri, Urucurituba, Apuí, Manicoré, Manacapuru e Caapiranga.

O pedido ao governo Lula foi realizado por meio do Centro Integrado Multiagência de Coordenação Operacional Federal (Ciman), coordenado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Segundo o MMA, a demanda do governo do Amazonas foi encaminhada à Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que avalia o envio de equipes pelo Projeto Respad. “Seguiu também para o Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional (MIDR), que avalia a disponibilização de aeronaves pelo Projeto Pegasus para áreas de difícil acesso. O Ciman orientou ainda o estado sobre as medidas para o reconhecimento de situação de emergência, que agiliza o acesso aos mecanismos federais de resposta”, diz um trecho da nota.

No Amazonas, a pasta informou que o  Ibama atua com 162 brigadistas em Terras Indígenas e Projetos de Assentamento prioritários, e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) conta com outros 46 nas Unidades de Conservação federais.

O MMA também confirmou a descentralização de R$ 521 milhões por meio do Fundo Amazônia para o fortalecimento dos Corpos de Bombeiros dos estados da Amazônia Legal, do Cerrado e do Pantanal, incluindo o Amazonas, que recebeu R$ 45 milhões. “Outros quase R$ 30 milhões foram destinados a municípios da Amazônia e do Pantanal, entre eles Apuí, Manicoré e Lábrea.”

Agindo por decreto

Captura de tela do app Selva, às 07h18, mostra a qualidade do ar em Manaus, em 24 de setembro.

Com a intensificação das queimadas, incêndios florestais e os índices de péssima qualidade nas cidades da região Metropolitana de Manaus, Roberto Cidade assinou um decreto no dia 9 de setembro. Nesta data, a plataforma Selva já tinha registrado índice péssimo na qualidade do ar da capital. A concentração média de partículas finas (MP2,5) alcançou  118 µg/m³; (microgramas por metro cúbico) devido à fumaça das queimadas e incêndios florestais.

O decreto estadual n.º 55.339 proíbe o uso do fogo no Estado do Amazonas e define medidas de controle da qualidade do ar e proteção à saúde pública. O decreto é válido pelo prazo de 120 dias, podendo ser prorrogado ou alterado mediante novo decreto motivado.

As atividades proibidas são: “o uso do fogo para limpeza, renovação e manejo de áreas, eliminação de resíduos vegetais e qualquer finalidade agrossilvipastoril em todo o território estadual”.

A medida suspendeu as autorizações para execução de queimas controladas mesmo que autorizadas anteriormente. “O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) suspenderá a emissão de novas licenças para essa finalidade”.

Sobre a qualidade do ar, o decreto afirma que quando ela atingir o índice “N5 – PÉSSIMA: ou 125 µg/m³; (microgramas por metro cúbico) a “recomendação é a suspensão de atividades físicas ao ar livre para toda a população”.

Manaus atingiu o pico extremo na qualidade de 324,1 µg/m³, segundo o Selva. Esse nível deixou o ar da capital o pior do mundo, ou seja, mais de 20 vezes acima do limite de segurança recomendado pela OMS para 24 horas, que é de 15 µg/m³.

Questionado pela reportagem da Amazônia Real sobre a fiscalização e o cumprimento do decreto, além das sanções previstas em caso de descumprimento, o Governo do Amazonas não informou se o decreto está sendo cumprido nem apresentou dados sobre eventuais autuações ou sanções relacionadas à medida.

Estado sem adaptação

Incêndio florestal no bairro indígenas no Parque das Tribos (Foto cedida por Adriano Teixeira).

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estimou em 95% a probabilidade do El Niño, fenômeno climático severo, atingir intensidade “muito forte” até dezembro de 2026. O fenômeno pode provocar alterações no regime de chuvas e aumentar o risco de estiagem e incêndios em diferentes regiões da Amazônia.

Diante das informações preocupantes da NOAA sobre o impacto do Super El Niño no mundo entre os meses de setembro, outubro e novembro deste ano, o governo Lula lançou, no mês de março, o Plano Nacional sobre Mudança do Clima (Plano Clima 2024–2035), principal instrumento para orientar as ações brasileiras voltadas ao enfrentamento da mudança do clima.

O Plano Clima é um dos instrumentos da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) e estabelece diretrizes para orientar ações de adaptação aos impactos da mudança do clima e de mitigação das emissões de gases de efeito estufa, em consonância com os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. No entanto, o plano não está em prática no Amazonas.

Em agosto, comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas, reunidos em Audiência Popular, exigiram ações permanentes das autoridades do Amazonas ações de adaptação climática para enfrentar os evento extremos como as altas temperaturas, as secas dos rios, a falta de água potável e de alimentos, como peixes, além da poluição do ar por causa dos incêndios florestais e queimadas.

O Amazonas não concluiu o Plano de Adaptação às Mudanças Climáticas – uma das metas da COP30. Conforme o Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM), a previsão era de que o documento fosse entregue neste mês. Uma nova previsão ainda não foi anunciada pelo governo estadual. Mesmo sem uma cartilha a seguir, as populações que vivem nos territórios já apontam o que consideram necessário para atravessar eventos extremos sem depender exclusivamente de respostas emergenciais.

Chuva abaixo da média

De acordo com o INPE, os municípios que registram os maiores índices florestais e queimadas no Amazonas neste período são e Manaus, Iranduba, Careiro da Várzea, Autazes e Manacapuru (região metropolitana da capital), Anori (no oeste), Apuí, Lábrea, Manicoré e Novo Aripuanã – situados no sul amazonense.

Segundo o Ibama, o incêndio florestal é caracterizado pela fogo sem controle que avança sobre qualquer forma de vegetação, podendo ser iniciado pelo homem (intencional ou acidental) ou por fonte natural (raio).

Já a queimada é o uso do fogo, seja para manejo de áreas de agricultura e pecuária ou com objetivos de conservação ambiental, como redução do combustível florestal (prevenção de incêndios), manejo da paisagem e preservação dos ecossistemas dependentes do fogo.

Em nota à reportagem, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informou que há oito dias não chove em Manaus. A última precipitação foi de 1,2 mm, em 16 de setembro. Entre 1º e 24 de setembro, o acumulado foi de apenas 1,2 mm, enquanto a normal climatológica para o mês é de 79 mm. Isso representa um déficit de 77,8 mm até o momento.

O mês de agosto também terminou com chuva muito abaixo da média. Foram registrados pelo Inmet apenas 2,4 mm de precipitação, diante de uma média climatológica de 56 mm para o mês.

Para os próximos dias, o Inmet prevê pancadas de chuva em áreas isoladas de Manaus nesta quinta-feira (24), sexta-feira (25) e sábado (26).

Segundo o instituto, apesar de setembro ser um dos meses de menor precipitação na região, as chuvas estão abaixo da média no Amazonas por conta do El Niño. A previsão climática indica redução de 50 a 100 mm nas precipitações em parte do estado.

“Em geral, em anos de El Niño, a precipitação na região do Amazonas fica abaixo da média. A previsão mais recente do INMET para o Amazonas indica chuvas abaixo da média em toda a faixa centro-leste do estado, com reduções entre 50 e 100 mm”, disse o Inmet.

A combinação de falta de chuvas, aumento das queimadas e baixa qualidade do ar interfere na saúde da população amazonense. Em entrevista à agência, o pneumologista Mário Sérgio Fonseca, do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), disse que a exposição à fumaça pode intensificar os sintomas de pacientes com asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), e levar à necessidade de atendimento de urgência.

“Nessa situação pode ocorrer intensificação dos sintomas e exacerbação, caracterizado por piora da falta de ar, tosse e desconforto respiratório. Se esses sintomas não melhoram com as condutas medicamentosas já habituais dos pacientes, devem procurar o serviço de urgência para avaliação”, explicou

Por conta própria

Voluntários atuando ao combate de incêndio florestal no Parque das Tribos. (Foto cedida por Adriano Teixeira).

Na área florestal do bairro indígena Parque das Tribos, na região do Tarumã-Açu, zona oeste da cidade, os moradores tentam controlar o fogo por conta própria. O incêndio florestal começou no sábado (19).

O bairro Parque das Tribos foi fundado em 2014.  No local vivem cerca de 5 mil pessoas ou 860 famílias; muitas são crianças e idosos. Os moradores são de diversos povos, entre Apurinã, Baré, Mura, Kokama, Tikuna, Wanano, Witoto, Sateré-Mawé e Tukano.

A agente fiscal e liderança do bairro, Eliza Sateré-Mawé diz que o fogo chegou a ser amenizado na quarta-feira (23) com ajuda de brigadistas, mas “o Corpo de Bombeiros não retornou ao local para conter novos focos”. Segundo ela, animais silvestres morreram durante o fogo, entre eles preguiças, cobras e jacurarus. 

Os moradores indígenas reclamaram que não receberam mais o apoio do poder público para combater as chamas. Nas redes sociais, eles organizaram uma vaquinha para arrecadar dinheiro e pagar um caminhão-pipa e usaram camburões e caixas d’água para levar água até os focos, trabalhando em coletivo.  Ainda não se sabe quantos hectares foram tomados pelo incêndio.

Eliza disse que, mesmo com a situação controlada em algumas áreas, havia focos de fogo nesta quinta-feira (24). Ela criticou a inércia das autoridades diante da grave situação.

“É revoltante porque a gente liga para os órgãos que deveriam solucionar os problemas, e o que acontece? Eles nos informaram que não tem carro suficiente, que não tem água suficiente, que não tem brigadista, que não tem pessoas preparadas para isso”, disse à Amazônia Real.

Sobre a origem do incêndio florestal no Parque das Tribos, a agente fiscal avalia que há fortes indícios de que tenha sido provocado intencionalmente, o que aumenta a preocupação com uma possível ocupação irregular da área.

“Sou uma pessoa voluntária que fiscaliza e preserva a minha comunidade, mas infelizmente a gente não pode estar lá o tempo todo. E aí aparece esse tipo de pessoa ruim, mal intencionada, que fica tacando fogo propositalmente”, denunciou Eliza Saterê Mawê.

Até o fechamento desta reportagem, o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) não respondeu aos questionamentos sobre a atuação no incêndio do Parque das Tribos, incluindo o número de equipes e viaturas enviadas, os equipamentos utilizados no combate e a situação dos focos na bairro indígena.


Esta reportagem foi produzida com a doação dos leitores na campanha da Amazônia Real para custear matérias sobre clima, política, ameaças aos defensores socioambientais e violações de direitos humanos. É isso que o jornalismo independente e investigativo pode fazer. Faça a sua contribuição pelo PIX: [email protected]


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