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Crise climática expõe crianças e adolescentes na Amazônia

Crise climática expõe crianças e adolescentes na Amazônia

Manaus (AM) – Na aldeia Tururukari-Uka, território do povo indígena Omágua Kambeba, os efeitos da crise climática já fazem parte da rotina das crianças e adolescentes. A jovem ativista indígena Taissa Kambeba, de 16 anos, relembrou os impactos diretos que os 50 moradores do local sofreram em 2023 e 2024, quando a bacia amazônica enfrentou uma seca sem precedentes na história recente. Sob o calor intenso e a diminuição do nível dos igarapés da comunidade, às margens da rodovia AM-070, entre as cidades de Manaus e Manacapuru (AM), os Kambeba ficaram isolados.

As famílias precisaram percorrer cerca de 47 quilômetros para conseguir pescar ou encontrar alimento, alterando completamente o modo de vida do “povo das águas”, conhecidos por sua relação ancestral e profunda com os rios e igarapés da região onde vivem.

“Foram todas as mudanças climáticas possíveis que aconteceram aqui dentro da minha comunidade, e afetaram não só a mim, mas a minha família também. Por diversas vezes eu não ia à escola por conta da seca, por conta do calor.  Foi algo muito complicado para mim. E ainda hoje continua sendo”, disse a jovem ativista à Amazônia Real.

O relato de Taissa reflete uma realidade compartilhada por milhares de crianças e adolescentes nos municípios amazônicos, e que agora está catalogada por meio de dados no Painel Crianças e Meio Ambiente, uma plataforma online lançada no último dia 23 de julho pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e Vital Strategies.

A plataforma reúne informações sobre a exposição de crianças e adolescentes a riscos socioambientais e climáticos em mais de 5 mil municípios brasileiros. Nas aldeias indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas e periferias urbanas da Amazônia Legal, os dados revelam que o agravamento dos eventos climáticos extremos como ondas de calor, chuvas intensas e seca, intensifica desigualdades.

Segundo o Unicef, a região concentra os maiores índices de vulnerabilidade socioambiental e climática do país entre crianças e adolescentes. Dos 450 municípios analisados, 42,4% apresentam dez ou mais indicadores considerados como de “alta prioridade”, ou seja, que demandam ação imediata e priorizada do poder público.

Na iminência de um Super El Niño anunciado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), a região amazônica se prepara para mais um período de altas temperaturas, níveis dos rios abaixo da média, aquecimento das águas e os incêndios florestais que espalham fumaça tóxica pelas cidades.

Mesmo com o alerta máximo de vulnerabilidade entre crianças e adolescentes neste cenário, não há um plano governamental voltado exclusivamente para a pauta de infância e meio ambiente no Amazonas, que fica atrás apenas do Pará no ranking nacional de riscos climáticos e ambientais.

Questionado pela reportagem sobre a existência de políticas voltadas à proteção de crianças e adolescentes expostos a riscos climáticos e socioambientais no Amazonas, o Governo do Estado não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta reportagem.

Zonas de risco

Taissa Kambeba (Foto: Juliana Pesqueira/ Amazônia Real).

Os dados do Unicef mostram que as crianças e adolescentes amazônidas estão expostos simultaneamente à degradação ambiental, à precariedade da infraestrutura básica como coleta de esgoto e acesso à água potável, à falta de áreas verdes e também aos eventos climáticos extremos.

Com 14 indicadores consolidados e organizados em quatro áreas temáticas, o levantamento apresenta diagnóstico da situação de cada cidade, destacando os principais desafios para o bem-estar de crianças e adolescentes daquele território. Dos 30 municípios com pior desempenho nacional na pesquisa, 24 estão localizados na região da Amazônia Legal.

Pará, Amazonas, Acre, Maranhão e Mato Grosso são os estados que concentram os cenários mais críticos em relação a baixa cobertura de saneamento básico, intensa pressão ambiental, péssima qualidade do ar, ondas de calor e condições climáticas extremas que afetam de forma convergente boa parte dos territórios e das crianças.

No Amazonas, as principais ameaças registradas incluem a seca dos rios que leva ao isolamento de comunidades, interrompe o transporte escolar e compromete o acesso adequado à água . O estado também enfrenta os impactos da poluição do ar provocada pelas queimadas e do histórico déficit de saneamento básico, especialmente na coleta e no tratamento de esgoto e do lixo.

Proporcionalmente, Manaus está entre os 25% de municípios com mais crianças e adolescentes na população. Isso significa que ações voltadas para proteger meninos e meninas são ainda mais urgentes e necessárias na capital amazonense, onde 77.34% das crianças e adolescentes estão matriculados em escolas sem área verde; 10.52% vivem em domicílios sem coleta de esgoto; e 18.89% não tem acesso a abastecimento adequado de água tratada.

Para os jovens amazônidas, não basta que os espaços de discussão estejam limitados aos adultos e aos governantes. Eles querem ser incluídos nos debates de políticas públicas, já que vivenciam os impactos da crise climática e têm conhecimento e experiências que precisam ser considerados na construção de soluções.

“As crianças, os adolescentes, sejam eles indígenas ou não indígenas, periféricos, quilombolas, ribeirinhos, todos eles já passaram por esse processo. Se a gente não cuidar do clima agora, daqui a 10, 20 anos, não vai existir mais nada. Eu prezo muito para que incluam as crianças nessa pauta, porque nós também pensamos e estamos construindo um futuro de qualidade”, manifestou Taissa Kambeba.

A fumaça que sufoca

Novo Progresso no sudoeste do Pará embaixo da fumaça causada pelas queimadas, em 2024 (Foto: Alberto César Araújo/ Amazônia Real).

Entre os indicadores mais preocupantes está a qualidade do ar e sua relação com a saúde infantil: 94% dos municípios da Amazônia Legal registram alta prioridade para poluição por partículas finas (PM2,5), superando os limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A poluição é provocada principalmente pelas queimadas. Uma exposição contínua a esses poluentes aumenta o risco de doenças respiratórias e pode comprometer o desenvolvimento pulmonar de crianças e adolescentes.

A jovem Taissa Kambeba inalou a fumaça de queimadas constantes nos períodos de seca e calor na aldeia Tururukari-Uka. “A fumaça da queimada nos afetou muito, foi uma das piores. Foi algo muito doloroso”, relatou. O fogo destruiu centenas de hectares e animais foram queimados. “Alguém que cresce dentro do território e vê aquilo [natureza] sendo cuidado com toda atenção…e quando a gente viu que a queimada estava acontecendo, foi um desespero total”, lamentou Taissa.

De acordo com Danilo Moura, especialista em Clima, Meio Ambiente e Redução de Riscos de Desastres (DRR) do Unicef Brasil, as prioridades dos governos municipais devem considerar a natureza de cada problema.

Enquanto eventos como ondas de calor, secas e chuvas intensas exigem estratégias de adaptação para reduzir seus impactos, questões como poluição do ar e queimadas podem ser enfrentadas com políticas públicas já conhecidas, como as ações do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas do Amazonas (PPCDQ-AM), coordenado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente  (Sema) para conter queimadas e poluição do ar por meio de fiscalização de desmatamento, uso de inteligência no monitoramento por satélite, criação de brigadas de incêndio e restrição de incentivos a quem usa fogo.

Na Amazônia, segundo o especialista, o desafio é maior porque as vulnerabilidades sociais e climáticas se sobrepõem, tornando a região prioritária para ações de adaptação e proteção.

“Nos últimos anos, especialmente em 2023 e 2024, os períodos de seca tiveram impactos bem grandes sobre as comunidades. Nesse caso, a gente precisa ter uma atenção especial para a Amazônia levando em consideração essa interação de vulnerabilidade social com vulnerabilidade climática e ambiental, para pensar quais são as estratégias e para priorizar a região com atenção especial para se proteger desses riscos”, afirmou Moura.

Falta de infraestrutura básica

Igarapé do Franco, um dos cursos d’água mais conhecidos, localizado na zona oeste de Manaus (Foto: Raphael Alves/Amazônia Real/ 21/04/2021).

A falta de infraestrutura e políticas públicas capazes de reduzir na prática os riscos  a crianças e adolescentes da Amazônia Legal intensificam a vulnerabilidade, que vai além da poluição atmosférica. No que diz respeito ao ambiente escolar, 71% dos municípios amazônicos não dispõem simultaneamente de água encanada, esgotamento sanitário e coleta de lixo nas unidades de ensino onde as crianças e adolescentes estão regularmente matriculados.

Outros indicadores apontam que cerca de 87% dos municípios da região apresentam deficiência na coleta de esgoto; 60% têm baixa cobertura de abastecimento de água; 79% registram moradias precárias; e 91% enfrentam alta prioridade para chuvas intensas e inundações. Ao mesmo tempo, secas severas passaram a atingir áreas da Amazônia Legal que dependem dos rios para abastecimento, transporte e alimentação.

Além de apontar os problemas, o levantamento do Unicef traz ainda 50 recomendações para apoiar gestores municipais no planejamento e na implementação de políticas públicas para responder aos desafios identificados pelos dados e proteger a infância e a adolescência. Planejamento e adoção progressiva de medidas, além de melhoria nos monitoramentos já existentes estão entre as prioridades.

Para Joaquin Gonzalez-Aleman, representante do Unicef no Brasil, ao reunir dados acessíveis e territorializados, a ferramenta contribui para a definição de prioridades e para o fortalecimento de ações adaptadas às realidades locais, integrando também as estratégias do Selo Unicef como apoio ao desenvolvimento de políticas públicas.

“Crianças e adolescentes são os mais afetados pelos impactos das mudanças climáticas e da poluição, embora sejam os que menos contribuem para esse cenário. Lançado no momento em que o País se prepara para a chegada do El Niño e seus possíveis impactos, o Painel foi desenvolvido para apoiar gestores públicos na identificação dos principais riscos que afetam meninos e meninas em seus territórios, oferecendo evidências que ajudam a orientar ações mais eficazes para proteger seus direitos e seu desenvolvimento”, destacou.

Nota: O depoimento da adolescente Taissa Kambeba, reproduzido nesta reportagem a partir de gravação em áudio, foi utilizado com autorização de sua responsável legal, conforme os procedimentos de consentimento adotados para a realização da entrevista e a divulgação de seu conteúdo jornalístico da agência Amazônia Real.


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