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O que leva caminhoneiros a atropelar ou desviar de animais silvestres em rodovias?

O que leva caminhoneiros a atropelar ou desviar de animais silvestres em rodovias?

Quando um animal aparece na pista, o motorista tem apenas alguns segundos para decidir se freia, desvia ou mantém sua trajetória. Mas o que influencia essa decisão? O animal encontrado? As emoções que ele desperta? Os riscos associados a cada reação? Ou até mesmo uma intenção deliberada de atropelá-lo?

Com base em teorias da Psicologia, investigamos como caminhoneiros reagem ao encontrar animais silvestres em três rodovias do Mato Grosso do Sul (Figura 2). Essas rodovias atravessam áreas do Cerrado e do Pantanal com grande riqueza de fauna (Figura 3) e são intensamente utilizadas para o transporte de cargas (Figura 4). Por isso, compreender a perspectiva dos caminhoneiros é fundamental para entender as colisões entre veículos e animais silvestres na região. 

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Localização das três rodovias do Mato Grosso do Sul onde os dados foram coletados. Crédito: Divulgação.

O que acontece quando um animal aparece na pista?

Primeiro, entrevistamos 82 caminhoneiros para compreender como percebiam os encontros com animais silvestres e os riscos associados a frear, desviar ou manter o veículo em sua trajetória. As entrevistas revelaram cinco dimensões psicológicas recorrentes que poderiam influenciar suas decisões: as atitudes em relação às espécies, as atitudes em relação ao atropelamento de um animal, as emoções e os riscos percebidos tanto ao tentar evitar uma colisão quanto ao atingir o animal (Figura 5).

A partir desses resultados, elaboramos um questionário, respondido por outros 117 caminhoneiros, com situações hipotéticas envolvendo serpentes, tatus e tamanduás-bandeira. Esses animais despertavam percepções bastante diferentes: do medo e da aversão à neutralidade, à admiração e à preocupação com sua conservação. Investigamos, então, se essas diferenças ajudavam a explicar a intenção dos motoristas de atropelar ou evitar cada animal.

As cinco dimensões psicológicas que podem influenciar a resposta dos caminhoneiros diante de uma possível colisão com um animal silvestre. Crédito: Divulgação.

Evitar o animal pode parecer mais perigoso

Os caminhoneiros demonstraram percepções distintas sobre os animais: as cobras, por exemplo, despertavam atitudes mais negativas e menor preocupação do que tatus e tamanduás-bandeira. Ainda assim, mesmo aqueles que admiravam os animais ou se preocupavam com sua conservação na maioria das vezes consideravam impossível tentar evitar uma colisão.

Diante de um animal na pista, a reação descrita por muitos caminhoneiros era direta: “segura e vai” — manter o volante firme e seguir em linha reta. Essa decisão estava menos relacionada ao animal encontrado do que aos riscos percebidos de frear ou desviar. Caminhões são veículos de grande porte, frequentemente carregados com dezenas de toneladas, que exigem maior distância de frenagem e oferecem pouca margem para manobras repentinas. Uma tentativa de frenagem ou desvio pode provocar tombamento, saída de pista ou uma colisão com outros veículos.

Assim, manter a trajetória não significava indiferença ou intenção de atingir o animal, mas era percebido como a alternativa mais segura em uma decisão tomada em poucos segundos. O principal fator associado à intenção dos caminhoneiros foi, portanto, o risco atribuído às possíveis reações — e não o que sentiam em relação à fauna.

Trecho da BR-262 que atravessa o Pantanal, em Mato Grosso do Sul. Foto: Mário Alves.

Empatia não é suficiente

Esses resultados têm implicações importantes para a conservação. Campanhas de sensibilização para evitar colisões podem incentivar comportamentos preventivos, como reduzir a velocidade, redobrar a atenção, evitar viagens noturnas quando possível e não descartar resíduos que possam atrair animais para a rodovia.

No entanto, campanhas centradas apenas na empatia ou na preocupação com a conservação das espécies podem ter efeito limitado. Mensagens genéricas, como “proteja a fauna” ou “eu freio pelos animais”, podem ser insuficientes — e eticamente questionáveis — quando atribuem aos motoristas a responsabilidade por situações que resultam, em grande medida, da ausência de estruturas adequadas de mitigação, como cercas direcionadoras e passagens de fauna.

Dos atropelamentos às colisões: é preciso considerar os dois lados do impacto

Se há pouca margem para que o motorista evite o impacto com segurança, é necessário investir em medidas que atuem sobre o comportamento dos animais, reduzindo a probabilidade de que acessem a pista. Cercas direcionadoras, quando adequadamente planejadas e mantidas, e integradas a passagens de fauna, podem impedir o acesso dos animais à rodovia e oferecer locais mais seguros para a travessia.

Essa perspectiva também amplia o próprio objetivo da mitigação. Em vez de pensar apenas em evitar atropelamentos e reduzir a mortalidade da fauna, é necessário prevenir colisões.  Essa mudança de linguagem reconhece os custos dos dois lados do impacto: animais podem morrer ou sofrer ferimentos graves, enquanto motoristas e passageiros podem ser feridos, perder a vida ou enfrentar prejuízos materiais e consequências psicológicas.

Rodovia BR-262, em Mato Grosso do Sul. Foto: acervo do Projeto Bandeiras e Rodovias.

A mitigação passa, assim, a integrar uma agenda mais ampla de segurança viária, na qual a proteção da biodiversidade e a segurança das pessoas devem ser tratadas conjuntamente. Ao mesmo tempo, os motoristas deixam de ser vistos como a principal ameaça e passam a ser reconhecidos como atores fundamentais para compreender o problema e participar da construção de soluções.

O Projeto Bandeiras & Rodovias

Esta pesquisa foi conduzida como parte do Projeto Bandeiras & Rodovias, liderado pelo Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS) em Mato Grosso do Sul, Brasil, desde 2017. Os resultados ajudaram a ampliar o foco do projeto, inicialmente centrado principalmente na mortalidade de fauna, para uma estratégia de prevenção de colisões, colocando a segurança viária e a colaboração multissetorial no centro do planejamento de medidas de mitigação. Essa mudança orienta hoje a visão do projeto: construir rodovias seguras para todos: fauna silvestre e pessoas.

Referência

Catapani, M. L., St. John, F. A. V., Desbiez, A. L. J., & Morsello, C. (2026). To hit or not to hit: The psychological dimensions of wildlife-truck collisions in Brazil. Biological Conservation, 313, 111569. https://doi.org/10.1016/j.biocon.2025.111569

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