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Ataque de criminosos armados ameaça ambientalistas na Serra da Chapadinha, na Bahia

Ataque de criminosos armados ameaça ambientalistas na Serra da Chapadinha, na Bahia

Na madrugada de quinta (30) para sexta-feira (1º), um grupo de criminosos armados invadiu a Pousada Toca do Lobo em atentado contra um casal de ambientalistas que luta para proteger a Serra da Chapadinha, no interior da Bahia. Com tiros para o alto, apontando armas e ameaçando incendiar tudo, os criminosos encurralaram os proprietários da pousada, Alcione Correa e Marcos Fantini, enquanto reviraram o local, destruindo computadores, HDs, celulares, rádios e toda estrutura de energia da propriedade – alimentada por placas solares e baterias. O local, posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, está no coração da Serra da Chapadinha, no sul da Chapada Diamantina, um território em disputa por interesses econômicos que desejam barrar a criação de uma unidade de conservação de proteção integral.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia foi notificada e a Polícia Civil irá investigar o caso. O Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA) também foram acionados. Alcione e Marcos não sofreram ferimentos graves e estão em um local seguro, de onde conversaram por telefone com a reportagem.

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“Nós não sabemos o horário exato, foi na madrugada de quinta para sexta, estávamos sozinhos na pousada. Chegaram e começaram a falar lá fora para gente sair, começaram a atirar com espingardas, metendo bala para cima, aí jogaram gasolina na porta do nosso quarto e na janela e vimos a luz do fogo, parecia uma tocha ou um maçarico. Nós vimos pela janela, eram de seis a sete pessoas, todos de balaclava e fortemente armados. Tinham submetralhadoras, rifles, armamento pesado…”, conta Alcione por telefone para ((o))eco.

Os dois saíram de mãos para cima do quarto, foram jogados no chão e imobilizados. Nesse momento, os criminosos começaram a revirar o local e pegaram computadores, celulares, HDs, rádios e uma pistola legalizada que o casal mantinha na propriedade. Além disso, cortaram a internet e destruíram todo o sistema de energia solar que alimentava a pousada (baterias, placa solar e disjuntores) e armadilhas fotográficas (acionadas por movimento para documentar animais selvagens) que teriam registrado a ação dos bandidos. Parte dos equipamentos foi queimada no próprio local.

“E começaram a falar que era por causa da gente que a mineradora ainda não tinha entrado e que nós estávamos atrapalhando o progresso da Chapadinha”, continua Alcione. “Arma na cabeça, arma na boca, ameaçaram fazer marca de ferro na gente… Não sei como não mataram a gente”, desabafa a engenheira química e ambientalista. O casal suspeita que o atentado foi realizado por milicianos contratados por aqueles que possuem interesse econômico na exploração da Serra da Chapadinha.

A ação durou entre uma e duas horas, estima o casal. Por fim, os criminosos ordenaram que eles entrassem de volta no quarto e foram embora. Deixados sem nenhum meio de comunicação remanescente, os dois esperaram o dia amanhecer e desceram por uma trilha a pé, para escapar de qualquer nova tentativa de emboscada na única estrada que dá acesso à pousada, localizada no município de Itaetê.

Quarto revirado pelos criminosos durante o atentado. Foto: Alcione Correa

((o))eco acompanha a luta pela proteção da Serra da Chapadinha desde 2023, quando denunciamos as pressões da mineração, grilagem, especulação imobiliária e desmatamento no território e mostramos o início da mobilização popular “Salve a Serra da Chapadinha”, que pede pela criação de uma unidade de conservação (UC) no local.

Relembre: Contra mineração, movimento luta para proteger a Serra da Chapadinha

Desde então, o processo ganhou maturidade com o avanço dos estudos – que reforçam o valor socioambiental da conservação da Serra da Chapadinha e a importância da área para segurança hídrica da Bahia – e foi formalizado dentro do governo estadual baiano, onde a Secretaria do Estado de Meio Ambiente (SEMA) iniciou em abril oficinas no território com atores locais para debater a proposta. O site da SEMA anuncia que abrirá em breve a consulta pública sobre a criação da UC, etapa em que a sociedade pode se manifestar sobre a proposição.

Atualmente, a luta dos ambientalistas é para que seja criado um Refúgio de Vida Silvestre (REVIS). Esta categoria de UC de proteção integral pode ser compatibilizada com propriedades particulares desde que não comprometam a finalidade de conservação da natureza, mas proíbe empreendimentos de alto impacto como a mineração.

Fontes ouvidas por ((o))eco contam que nos bastidores do governo estadual há uma pressão, por parte de mineradoras e outras empresas interessadas na exploração da Serra da Chapadinha, para que seja criada, no lugar do refúgio, uma Área de Proteção Ambiental (APA), de uso sustentável e a mais permissiva entre todos os tipos de UC, que permite, inclusive, a atividade minerária.

Entre a Caatinga e a Mata Atlântica, a Serra da Chapadinha está localizada ao sul do Parque Nacional da Chapada Diamantina. A proposta de área protegida envolveria o território de três municípios, sendo a maior parte em Itaetê e duas porções menores em Mucugê e Ibicoara. O local abriga diversas espécies ameaçadas de extinção da fauna e flora brasileira, além de ser peça vital para a segurança hídrica regional, contribuindo com o abastecimento de água da própria capital, Salvador.

“A arma não estava só na minha cabeça, ela estava na cabeça de todo mundo que é ligado à proteção ambiental e à sobrevivência humana. Porque em pleno colapso climático, nós estamos lutando pela água de milhões de pessoas”, resume Alcione.

Seu companheiro de vida e luta, Marcos complementa a fala, com a voz serena e firme: “Superamos o medo da morte com a nossa fé na causa e nossos ideais e estamos ainda mais fortes e convictos da nossa missão aqui”.

O casal Marcos e Alcione, proprietários da Toca do Lobo e defensores da Serra da Chapadinha. Foto tirada em 2023: Duda Menegassi / O Eco

Um ataque à caixa-d’água da Bahia

Alcione e Marcos se reuniram nesta segunda-feira (4) com o deputado estadual Hilton Coelho (PSOL-BA) que apoia a criação do Refúgio de Vida Silvestre. Em vídeo gravado no gabinete do parlamentar durante o encontro, Hilton reforçou o papel dos dois como lideranças da luta em defesa da Serra da Chapadinha e engrossou o coro de cobrança ao governador Jerônimo Rodrigues (PT-BA) pela demora na criação da unidade de conservação. “O que está em jogo é a disputa em relação à preservação do meio ambiente e da própria água que sai das nossas torneiras”, afirmou.

Já em 2023, o deputado encaminhou uma indicação (n° 26.650/23) ao governador baiano para transformar a Serra da Chapadinha em uma área protegida. O documento destaca a necessidade da medida para “preservação e conservação de uma das mais importantes regiões de recarga hídrica responsável pelo abastecimento da água de 80 municípios, inclusive a capital, no Estado da Bahia”.

O processo da proposta de criação de uma unidade de conservação estadual na Serra da Chapadinha tem sido acompanhado pelo Departamento de Áreas Protegidas (DAP) do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), que tem apoiado os estudos necessários na área.

“A Serra da Chapadinha, localizada na Chapada Diamantina, possui enorme relevância ambiental e estratégica para a conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos da Bahia, incluindo a proteção de nascentes essenciais à segurança hídrica do estado. Estudos do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro reforçam a importância da região pela presença de espécies raras e ameaçadas”, destaca Bernardo Issa, coordenador geral do SNUC (DAP/MMA).

Em conversa com ((o))eco, o coordenador ressaltou ainda que recebeu com preocupação “as notícias de violência contra defensores ambientais da região”.

A Serra da Chapadinha é uma caixa d’água, com rios e nascentes que ajudam a abastecer o rio Una, principal afluente do Paraguaçu, que leva água para mais de 80 municípios da Bahia. Foto: Duda Menegassi / O Eco

Em nota, outras organizações envolvidas na defesa da Serra da Chapadinha e que atuam na região também manifestaram seu repúdio pelo atentado.

A Coordenação Nacional do Programa de Postos Avançados da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (RBMA) destaca que o atentado à Alcione e Marcos, “reconhecidos como verdadeiros guardiões da Serra da Chapadinha (…) representam uma afronta direta às iniciativas de conservação da Mata Atlântica e à atuação de pessoas dedicam suas vidas à proteção do Patrimônio Natural brasileiro”.

Desde dezembro de 2024, a Toca do Lobo é reconhecida como Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela UNESCO.

“Trata-se de um ato de extrema violência e intimidação, absolutamente inaceitável”, qualifica a Comissão Pastoral da Terra (CPT). “A região é de extrema importância para a recarga hídrica da Bahia, mas vem sofrendo por grilagem de terras e especulação de mineradoras. A CPT manifesta total solidariedade às vítimas e todas as lideranças que lutam por dias melhores, numa região que sempre aparece nas estatísticas de violência no campo”, completa a nota.

A CPT divulgou no final de abril os dados de violência no campo do Brasil em 2025. Os números revelam uma redução nos registros, porém uma escalada na gravidade dos episódios documentados, com o dobro de vítimas fatais de conflitos agrários (26) em relação ao ano anterior. Ao todo, foram contabilizados 1.593 conflitos por terra, água e trabalho no país em 2025, de acordo com dados da Pastoral.

A Bahia é um dos estados fora da Amazônia Legal com maior número de casos de violência. Segundo dados do relatório fornecidos a ((o))eco, foram 116 conflitos por terra e 19 conflitos por água no estado em 2025. E um total de 67 pessoas vítimas de violência no campo, a maioria indígenas, causados por fazendeiros, grileiros, traficantes e empresários.

Em nota enviada à reportagem, o MMA afirmou que repudia toda ameaça ou ato de violência contra defensores ambientais, como o ocorrido na Serra da Chapadinha, e que aguarda a conclusão das investigações conduzidas pela Polícia Civil. “A Serra da Chapadinha possui elevada relevância ambiental, integrando importante área vinculada à Reserva da Biosfera da Mata Atlântica reconhecida pela UNESCO. Estudos conduzidos por pesquisadores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro registraram alta biodiversidade na região, com ocorrência de espécies raras e ameaçadas de extinção”, destaca o ministério*.

A Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente (ANAMMA) e Mulheres pelo Clima e Biodiversidade também manifestaram sua preocupação com o episódio de violência em nota conjunta em que ressaltaram a importância da apuração dos fatos pelas autoridades competentes.

*Atualização às 21:30 de 04/05/2026 para inclusão do posicionamento do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.



As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site O Eco e são de total responsabilidade do autor.
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