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marco histórico em Boa Vista

marco histórico em Boa Vista

Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Foto: Reprodução/Facebook-@PMZ

“Essa igreja é a igreja mais linda que eu já vi na minha vida!”. Foi o que disse a atriz Giovanna Antonelli ao visitar a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo, em Boa Vista (RR). Mas você conhece a história dessa igreja? 

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A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo é um dos principais marcos históricos de Roraima e está diretamente ligada à formação social e religiosa do vale do rio Branco.

De acordo com o historiador roraimense José Vitor Mattioni, a origem da igreja ainda gera dúvidas entre os pesquisadores. 

“Alguns apontam que foi a ordem carmelita a partir de uma capela construída no século XVIII. Mas a sua elevação como igreja e expansão começou no final do século XIX com a presença da ordem dos franciscano”, afirmou o historiador. 

Mattioni destaca que a história da Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo se confunde com a história do cristianismo na região, já que foi por meio de uma missão que um grupo de frades Carmelitas chegou ao Vale do Rio Branco. “Acredita-se que em 1725 [a chegada], embora esta data seja questionada pelos historiadores. Essa missão se destinava a converter os povos indígenas da região”, explicou. 

Consolidação com os franciscanos

A estrutura da igreja começou a se consolidar apenas no século XIX, com a chegada dos franciscanos em 1856. De acordo com Mattioni, os franciscanos construíram uma capela maior para Nossa Senhora do Carmo, fazendo com que a pequena capela ganhasse o status de matriz, sendo reconhecida como Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo.

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Foto: Reprodução/brasil-reddit

Segundo a tese de doutorado ‘Missionários, fazendeiros e índios em Roraima: A disputa pela terra, do historiador Jaci Guilherme Vieira, somente em 1892 foi fundada a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo de Boa Vista, tendo como seu primeiro Vigário o Cônego José Henrique Félix da Cruz. 

“Este teria sido substituído pelo Padre Manuel Furtado de Figueiredo, que passou a administrar a paróquia até 1909, ano em que foi substituído pelos Monges da Ordem de São Bento, vindos do Rio de Janeiro para fundar a Prelazia do Rio Branco”, explicou o autor. 

A chegada dos beneditinos e a arquitetura única

Um dos momentos mais importantes da história da igreja aconteceu em 7 de junho de  1909, com a chegada da Ordem de São Bento ao rio Branco. Segundo Vieira, os beneditinos estabeleceram-se em Boa Vista numa casa alugada, mudando- se posteriormente para uma fazenda, da qual legalmente passaram a ser proprietários. 

“Na verdade, tratava-se de uma antiga propriedade pertencente à Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Rio Branco, denominada Calungá”, explicou Vieira em sua tese.

De acordo com o historiador, os primeiros sacerdotes não conseguiram permanecer por muito tempo no pequeno centro urbano de Boa Vista nem entre as populações indígenas do interior, por conta das perseguições políticas de um coronel da região e por motivos de saúde, já que muitos contraíram malária e febre amarela. 

Além da atuação religiosa, os beneditinos deixaram uma marca profunda na arquitetura da igreja. Eles introduziram um estilo conhecido localmente como germânico, inspirado nos monges alemães da Baviera.

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Foto: Reprodução/brasil-reddit

Além das transformações físicas, os beneditinos ampliaram a estrutura do templo, construindo elementos como a sacristia e o átrio. A parte considerada ‘original’ da igreja corresponde à nave, que remonta às primeiras fases da construção.

De acordo com José Vitor Mattioni, o estilo que se pode observar hoje é uma herança da ordem dos beneditinos, mas com diversas adaptações à realidade local, transformando a igreja na única construção com características germânicas na Amazônia.

Conflitos

A presença beneditina não foi tranquila. De acordo com a dissertação do Bispo Vanthuy Neto, ‘Dirigir almas e servir ao jeito de muitos: A missão dos beneditinos junto aos povos indígenas de Roraima – 1909/19481, a Igreja do Carmo esteve no centro de conflitos políticos, expulsões e perseguições religiosas que envolveram a posse da Fazenda Nossa Senhora do Carmo, patrimônio da igreja.

Vanthuy, em sua dissertação, narra que a administração e o uso da fazenda foram motivo de controvérsia, com envolvimento direto do vigário geral da prelazia, inclusive com alertas formais para as invasões e obstruções feitas por forças locais contrárias à presença da Igreja.

De acordo com Jaci Guilherme Vieira, a perseguição aos monges esteve ligada principalmente à disputa pela terra e à estrutura de poder local, marcada pelo coronelismo. Os conflitos envolveram o coronel Bento Brasil e resultaram em episódios de violência, expulsão dos religiosos e invasão de espaços ligados à igreja.

“Os missionários beneditinos enfrentaram os primeiros problemas com a incipiente elite local, mais precisamente com Bento Brasil, chefe político da região e responsável, até então, pela administração da Fazenda Calungá que, em virtude do desmembramento da Diocese do Amazonas com a criação da Prelazia do Rio Branco, passou a pertencer aos novos religiosos”, explicou Vieira. 

O bispo Vanthuy reforça que os conflitos envolvendo a fazenda da Igreja do Carmo culminaram na expulsão de missionários e ocupação de espaços religiosos por grupos ligados ao poder local. 

Reformas e influência italiana

A igreja passou por novas transformações a partir da década de 1940, com a chegada da Missão Consolata, de origem italiana. De acordo com José Vitor Mattioni, quando a Missão Consolata chegou à Roraima, a igreja sofreu reformas devido à influência italiana.

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Foto: Reprodução/brasil-reddit

Segundo Mattioni, com a presença da Missão Consolata, houve uma alteração na aparência da Igreja Matriz, com a construção de uma nova fachada, com uma possível ‘rosácea’, elemento arquitetônico ornamental muito usado em catedrais durante o período gótico.

No início dos anos 2000, uma nova reforma foi realizada para celebrar o centenário da chegada dos beneditinos, com o objetivo de resgatar o estilo original da época.

“Devemos destacar que Igreja Matriz não teve alterações apenas na sua estrutura física, enquanto bem arquitetônico, mas também na forma como os atores ligados a estas mudanças viam a sua importância social e religiosa, ou seja, enquanto bem cultural”, destacou o historiador. 

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo

Além da dimensão arquitetônica, a igreja sempre teve um papel central na vida social de Boa Vista, já que antes do crescimento urbano da cidade, os principais eventos públicos, como festas e desfiles, aconteciam em frente à matriz.

Foto: Reprodução/brasil-reddit

José Vitor Mattioni destaca outro elemento importante do patrimônio artístico da igreja: a Via Crucis, pintada pelo artista conhecido como Cardoso, que faleceu durante a pandemia de Covid-19.

Nos registros de George Huebner e da expedição de Hamilton Rice, realizados em 1903 e 1924, já era possível identificar a presença da construção no cenário local, o que reforça sua importância histórica.

Esse reconhecimento se consolidou oficialmente na década de 1990, quando a igreja foi incluída na lista de patrimônios materiais do município de Boa Vista, por meio do Projeto Raízes. 

As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Portal Amazônia e são de total responsabilidade do autor.
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