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Toggle‘Guerreira das lutas’ foi feita para as apresentações de Marciele Albuquerque em 2022. Foto: Bruno Zanardo/Governo do Amazonas
“Ela é Munduruku, Tupinambá, Kayapó
Atroari, Asurini, Zo’é, ela é Sateré
Hixkaryana, guerreira, poranga-cunhã (cunhã!)“
A toada ‘Guerreira das lutas’, do Boi Caprichoso, ficou ainda mais popular após a participação de Marciele Albuquerque no Big Brother Brasil 2026 (BBB). A canção enaltece a cunhã-poranga do boi preto e azul, mas também reforça o poder ancestral de etnias indígenas amazônicas.
Neste 19 de abril, Dia do Povos Indígenas no Brasil, a toada é uma das formas que o item cultural amazonense encontra de reforçar a resistência histórica dos povos indígenas no Brasil.
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A música, apresentada no Festival de Parintins no álbum do Caprichoso de 2022, exalta a força feminina indígena, a defesa dos territórios ancestrais e cita oito etnias, das 391 registradas no Brasil, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Para reforçar a importância da data, Marciele Albuquerque, que também é indígena do povo Munduruku, fez um vídeo em que explica a letra da toada e também o significado desta data para o Brasil:
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Composta por Frank Ricardo, Judson Souza, Marcley Pantoja e Klinger Lyra, ‘Guerreira das lutas’ se insere em um ano em que o Boi Caprichoso apresentou como tema ‘Amazônia: Nossa Luta em Poesia’. Neste ano, o Caprichoso foi campeão do Festival Folclórico de Parintins e a toada foi composta para a apresentação da Cunhã-Poranga Marciele.
A música composta para a apresentação de Marciele destaca a resistência de diferentes etnias, muitas das quais enfrentaram processos de violência, expulsão territorial e tentativa de apagamento cultural ao longo da história brasileira.
A toada valoriza especialmente o protagonismo das mulheres indígenas, retratadas como guardiãs da cultura, da memória e da continuidade dos povos. Esse enfoque dialoga com a realidade de diversas etnias amazônicas, onde mulheres desempenham papel fundamental na transmissão de saberes tradicionais, como a língua, os rituais e as práticas culturais.
“Diferente do que muitos pensam, não somos todos iguais. Cada povo carrega sua própria identidade, costumes, crenças e línguas. O que temos em comum é a luta pela proteção da biodiversidade dos territórios e pelos nossos direitos”, explica Marciele Albuquerque no vídeo.
Na apresentação de 2022, o Caprichoso também tocou a toada no momento tribal e reverenciou mulheres como Tuíra Kayapó, Célia Xacriabá, Sônia Guajajara, Sâmela Sateré, Alessandra Kabá, Teporí Yawalapiti e a própria Marciele Albuquerque, que é do povo Munduruku.
Etnias
Na toada, oito etnias indígenas amazônicas são citadas. Confira algumas informações sobre as etnias, segundo dados do site Povos Indígenas do Brasil, do Instituto Socioambiental:
Autodenominados ‘Wuyjuyu’, do tronco Tupi, os Munduruku estão espalhados pelo Amazonas e pelo Pará. Segundo dados da SESAI de 2020, são cerca de 18 mil pessoas. Povo de tradição guerreira, os Munduruku dominavam culturalmente a região do Vale do Tapajós, que nos primeiros tempos de contato e durante o século XIX era conhecida como Mundurukânia.
Hoje, suas guerras contemporâneas estão voltadas para garantir a integridade de seu território, ameaçado pelas pressões das atividades ilegais dos garimpos de ouro, pelos projetos hidrelétricos e a construção de uma grande hidrovia no Tapajós.
Com maior parte residente na Bahia, os Tupinambá também tem representação no Pará. Os Tupinambá vivem na vila hoje conhecida como Olivença, local, em 1680, fundado por missionários jesuítas num aldeamento indígena. Desde então, os Tupinambá residem no território que circunda a vila, nas proximidades do curso de vários rios, entre os quais se destacam os rios Acuípe, Pixixica, Santaninha e Una. Em 2001, os Tupinambá de Olivença foram reconhecidos oficialmente como indígenas pela Funai.
A primeira fase de demarcação do seu território concluiu-se em abril de 2009 com a publicação do resumo do relatório de identificação e delimitação da Terra Indígena Tupinambá de Olivença. O uso do nome Tupinambá como autodesignação pelos indígenas de Olivença indica antes de tudo uma identificação social, cultural e histórica com as populações tupi que viveram nessa região.
Os Mẽbengôkre Kayapó estão distribuídos entre o Pará e o Mato Grosso. Eles vivem em aldeias dispersas ao longo do curso superior dos rios Iriri, Bacajá, Fresco e de outros afluentes do rio Xingu, desenhando no Brasil Central um território quase tão grande quanto a Áustria. É praticamente recoberto pela floresta equatorial, com exceção da porção oriental, preenchida por algumas áreas de cerrado.
A cosmologia, vida ritual e organização social desse povo são extremamente ricas e complexas; assim como são intensas e ambivalentes as relações com a sociedade nacional e com ambientalistas do mundo todo.
Autodenominados ‘Kinja’, os Waimiri Atroari, durante muito tempo, estiveram presentes no imaginário do povo brasileiro como um povo guerreiro, que enfrentava e matava a todos que tentavam entrar em seu território. Essa imagem contribuiu para que autoridades governamentais transferissem a incumbência das obras da rodovia BR 174 (Manaus-Boa Vista) ao Exército Brasileiro, que utilizou de forças militares repressivas para conter os indígenas.
Esse enfrentamento culminou na quase extinção do povo, que vive no Amazonas. A interferência em suas terras ainda foi agravada devido a instalação de uma empresa mineradora e o alagamento de parte de seu território pela construção de uma hidrelétrica. Mas os Waimiri Atroari enfrentaram a situação, negociaram com os ‘brancos’ e hoje têm assegurados os limites de sua terra, o vigor de sua cultura e o crescimento de sua gente.
Os Asurini do Xingu, ou Awaete, do Pará, após o contato com a sociedade nacional, em 1971, sofreram uma drástica baixa populacional. Contudo, o perigo eminente de sua extinção física sempre contrastou com uma extrema vitalidade cultural, manifesta na realização de extensos rituais, práticas de xamanismo e um elaborado sistema de arte gráfica.
Também do Pará, os Zo’é Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru. Eles convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da TI Zo’é e seu protocolo de consulta.
Encontrados no Amazonas, os Sateré-Mawé domesticaram o guaraná e criaram o processo de beneficiamento da planta, possibilitando que hoje o guaraná seja conhecido e consumido no mundo inteiro. O primeiro nome – Sateré – quer dizer “lagarta de fogo, referência ao clã mais importante dentre os que compõem esta sociedade, aquele que indica tradicionalmente a linha sucessória dos chefes políticos. O segundo nome – Mawé – quer dizer “papagaio inteligente e curioso e não é designação clânica.
Hixkaryana (hixka, veado vermelho; yana, povo; hixkaryana, povo veado vermelho) é um nome genérico para designar vários grupos de língua e cultura semelhantes, que vivem atualmente nos vales dos rios Nhamundá (Amazonas-Pará) e médio Jatapu (Amazonas). Hixkaryana engloba outros grupos que, muito provavelmente, tinham maior autonomia no passado, e que, ainda hoje, em contextos locais, se autodenominam: Kamarayana (kamara, onça; yana, povo; kamarayana,povo onça); Yukwarayana (yukwarî, goma de mandioca; yana, povo; yukwaryana, povo da goma de mandioca); Karahawyana; e Xowyana.
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‘Guerreira das lutas’
Confira um vídeo com a letra completa da toada do Boi Caprichoso:
Marciele Albuquerque no BBB 26
Marciele Albuquerque participou do Big Brother Brasil 26, reality show da Rede Globo, integrando o grupo de participantes do elenco principal. Ela ingressou no confinamento como Pipoca através da Casa de Vidro.
Ao longo do programa apresentou ao público temas relacionados à identidade indígena, cultura e territorialidade, que fizeram parte de suas falas e posicionamentos ao longo dos 90 dias de participação no reality show.
Marciele permaneceu no reality até ser eliminada no 15º “paredão” da edição, após votação do público. Ao longo da participação, teve presença constante em dinâmicas do jogo.
Dia dos Povos Indígenas
Celebrado em 19 de abril, o Dia dos Povos Indígenas foi instituído no Brasil em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas, inicialmente com o nome de “Dia do Índio”. A data remete ao Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México em 1940, que reuniu lideranças indígenas e representantes de diversos países para discutir políticas voltadas aos povos originários.
Ao longo dos anos, a data passou por ressignificação e, mais recentemente, por força de uma lei de 2022, foi oficialmente renomeada como Dia dos Povos Indígenas, com o objetivo de valorizar a diversidade cultural e reconhecer a pluralidade das etnias existentes no país.
“Apesar do Brasil ter um dia para os povos indígenas é importante lembrar que o nosso protagonismo não deve ser algo pontual. A ‘floresta em pé’ é resultado de milênios de sabedoria ancestral, de povos que já entenderam há muito tempo, que a terra não nos pertence, nós é que pertencemos a ela. A natureza, para nós, é sagrada. É onde reside a cura, o alimento e a nossa ancestralidade”, enfatiza Marciele no vídeo sobre a toada ‘Guerreira das lutas’.
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Portal Amazônia e são de total responsabilidade do autor.
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