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O capitão Kirk e o papagaio engaiolado

O capitão Kirk e o papagaio engaiolado

Igualdade apesar da não-identidade evidente é um conceito algo sofisticado que exige uma estatura moral da qual muitos indivíduos parecem incapazes”. Ernst Mayr, no capítulo O Homem como Espécie Biológica de seu livro Espécies Animais e Evolução (1963)

Quando visitei Lima pela primeira vez, fiz o circuito dos museus arqueológicos que guardam a história das civilizações do que é hoje o Peru. Em um deles havia uma coleção de cabeças-troféu preparadas para serem carregadas presas ao cinturão de algum guerreiro, líder e/ou sacerdote.

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Algumas das cabeças eram de crianças, talvez últimos herdeiros de uma dinastia conquistada. Os mesmos museus têm adornos feitos com penas de araras e papagaios capturados na Amazônia e levados para a costa do Pacífico.

Caso longe de ser único, Debret, no seu Viagem Pitoresca, retrata cabeças-troféu, decoradas com penas de papagaios e araras, preparadas por povos do que é hoje o leste do Brasil, e há exemplos amazônicos pelos museus do mundo.

Humanos e papagaios tornados iguais como material de artesanato, símbolos de identidade cultural e de poder.

A série original de Star Trek / Jornada nas Estrelas foi ao ar entre 1966 e 1969, na década que viu a Guerra do Vietnã, a Crise dos Mísseis de Cuba e os primeiros humanos na Lua. Nela, a Enterprise audaciosamente vai onde nenhum humano jamais esteve, na missão pacífica (apesar dos fasers e torpedos fotônicos) de descobrir novas formas de vida e civilizações.

A Star Trek original, com memórias da Segunda Grande Guerra e no auge da Guerra Fria, mostra impérios bélicos e autoritários (Klingons e Romulanos) e übermensch (Khan Noonien Singh) contra uma Federação democrática representada pelo capitão James Kirk (o canadense William Shatner), o navegador russo Pavel Chekov (Walter Koenig), o timoneiro japonês Hikaru Sulu (o genial George Takei) e o mestiço humano-vulcano Mr. Spock (Leonard Nimoy).

O papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) é uma das espécies mais traficadas no Brasil. Testes mostram sua capacidade de resolver problemas complexos. Foto: Fabio Olmos.

A década de 1960 também viu a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, onde leis estaduais institucionalizavam o racismo e a segregação, e cerceavam o direito ao voto.

O racismo reflete o chauvinismo tribal básico na psicologia humana que torna muito fácil considerar o “outro” menos que humano. As muitas autodenominações de povos que significam “gente de verdade”, com a implicação que os outros não são, são consequência menor.

Um episódio histórico é Plato’s Stepchildren (Os Enteados de Platão), de 22 de novembro de 1968. Depois da Suprema Corte americana considerar a proibição de casamentos interraciais inconstitucional em junho de 1967, vemos Kirk e a Tenente Uhura (a multitalentosa Nichelle Nichols) em um dos primeiros beijos interraciais da TV americana.

Também memorável é The Devil In The Dark (O Diabo na Escuridão). A Enterprise chega a Janus VI em socorro a mineradores que estão sendo mortos por uma criatura que também rouba uma peça crítica do reator que fornece energia à instalação.

No clímax (spoiler!) Spock estabelece seu elo mental Vulcano com a criatura, chamada Horta, que estava defendendo a nova geração de sua espécie, os “ovos” que os mineiros consideravam nódulos de silício. No fim tudo acaba bem e humanos e Hortas desenvolvem uma relação positiva.

Este episódio é especial pelo alienígena nada humanoide inteligente a ponto de escrever uma mensagem em inglês na parede, demonstrar consciência, empatia e moralidade. E com zero tecnologia.

Chimpanzés (Pan troglodytes) estão entre os parentes mais próximos dos humanos. Algumas jurisdições os consideram pessoas não-humanas, em outras são comida. Foto: Fabio Olmos.

Horta à parte, a invasão da Terra por alienígenas mais inteligentes e mais tecnológicos é tema popular quando surgem ansiedades sociais. A franquia Star Trek introduziu os Borg, uma visão onde a fusão humanos/máquinas/IA pode levar. Visão alternativa é a do ciclo Culture de Iain M. Banks.

Alienígenas são reflexo de nós mesmos. Há os Yautja/ Predators que tem na caça ritual eixo da sua cultura e colecionam crânios humanos como troféus e material de artesanato. Exatamente como civilizações antigas (como meus ancestrais ibéricos), povos tribais variados (incluindo daqui) e tropas de países “civilizados” em conflitos mais recentes.

E há os Na’vi da franquia Avatar, que enfrentam a corporação RDA. Retrato do bom selvagem ecologicamente correto que enfrenta os invasores de suas terras.

A dissociação entre inteligência/senciência e tecnologia é o oposto da maior parte da ficção científica. Mas a realidade em nosso planeta.

Cognição, emoções e inteligência são campos de pesquisa desde os filósofos da Antiguidade e ao eterno debate sobre o que torna humanos humanos e nos diferencia de outros animais.

Milênios de pesquisa demonstram que a autoconsciência, o “eu”, é resultado da estrutura física do sistema nervoso e da bioquímica que o faz funcionar. Funcionamento que depende do que chamamos de emoções (uma sugestão de leitura).

Araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) podem usar instrumentos e resolver problemas complexos. Foto: Fabio Olmos.

A forma como organismos, de bactérias a Bach, percebem e lidam com o mundo e a emergência da consciência resultam da interação entre genes, ambiente e outros organismos, da sua mãe às bactérias em seu intestino. Genes que são resultado de bilhões de anos de evolução por seleção natural e base de nosso comportamento.

Um dos livros mais interessantes de Charles Darwin é A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais. Parte de seu trabalho sobre como a evolução se aplica aos humanos, Darwin levantou questões que alguns até hoje acham polêmicas, como as expressões emocionais serem inatas e universais.

Darwin, que visitou o Brasil e enojado pela escravidão que era normal aqui, via as diferenças intelectuais entre humanos e animais como de grau, e não qualitativas. Comunalidades herdadas de ancestrais comuns.

Sabemos hoje que animais têm cognição que se julgava exclusiva de humanos. Embora falar de crocodilos brincando com amigos seja tentador, é mais fácil começar com pesquisadores como Jane Goodall e Franz de Waal demonstrando que nossos parentes mais próximos não apenas têm inteligência de diferentes tipos – especialmente emocional – mas mostram empatia e as bases da moralidade que achávamos ser exclusividade humana.

A matriarca de uma família de elefantes-da-savana (Loxodonta africana) para o trânsito para que sua família atravesse a estrada. As matriarcas guardam a cultura de suas famílias, transmitida entre gerações. Foto: Fabio Olmos.

Particularmente gosto dos livros de De Waal, que tratam sobre a evolução da moralidade (algo ancestral que foi hackeado pela religião) e questiona se somos inteligentes o suficiente para saber quão inteligentes são os animais.

Como os Nampranth do genial conto Hunter Captain, muitos parecem cegos por pressupostos mais baseados em especismo chauvinista que Ciência.

Como Darwin ao visitar Jenny, quem conheceu um chimpanzé, orangotango, gorila ou bonobo se sente diante de outra pessoa, algumas capazes de jogos de imaginação que alguns humanos não conseguem.

O mesmo para parentes mais afastados, como macacos-prego que usam instrumentos (resultado de um momento monolito no estilo 2001?) e se rebelam quando percebem desigualdades salariais.

O que chamamos de inteligência é variação de tema comum em nossa linhagem primata e em outras linhagens mamíferas.  Elefantes vivem em sociedades complexas, indivíduos com personalidades se chamam pelo nome, o conhecimento é passado de geração a geração e parentes e amigos demonstram luto quando perdem entes queridos. A The Economist os descreve como espelho da evolução humana.

Cetáceos, evolutivamente ainda mais distantes, têm sociedades similares às nossas e às dos elefantes (e outros bichos), com tradições culturais (como a linguagem) transmitidas de geração em geração que são a base do isolamento genético – e divergência evolutiva – em alguns grupos.

Como os ecotipos de orcas que falam línguas diferentes e consideram membros de populações vizinhas como comida. Paralelo interessante com alguns grupos humanos.

Algumas populações do boto-de-Lahille (Tursiops gephyreus) criaram a tradição de pescar de forma cooperativa com humanos. Foto: Fabio Olmos.

Inteligência e senciência não são exclusividade mamífera e organismos como polvos (e aqui lembro do capitão Jacques Cousteau, explorador como o capitão Kirk, mas real) e aves levantam questões que têm interessado não só neurologistas e biólogos evolutivos, mas filósofos.

Aves têm mais poder de processamento por volume cerebral que mamíferos e há boa literatura sobre sua inteligência (sugestões aqui e aqui). Corvídeos (gralhas, corvos, pegas) e psitacídeos (keas, papagaios, araras, periquitos, lories, cacatuas) se destacam por espécies que se reconhecem no espelho (bebês humanos não), resolvem quebra-cabeças, têm capacidade de contar, usam instrumentos, calculam probabilidades e demonstram raciocínio simbólico.

O papagaio-cinzento africano, bastante estudado, mostra inteligência superior à de crianças humanas de 4 anos em alguns testes. E à de universitários em outros, o que os torna cativos desejados. O tráfico de escravos dizimou populações em países como Ghana, que viu 99% de seus papagaios serem capturados por um comércio multinacional que continua. Vemos o mesmo com os papagaios daqui.

Ponto comum entre boa parte das espécies com senciência e inteligência mais sofisticadas é viver em grupos sociais com dinâmicas complexas de interação, linguagem (incluindo nomes individuais) e transmissão cultural de conhecimento.

A perda do conhecimento transmitido oralmente com a morte dos anciões é notícia regular e uma das tragédias das sociedades que não usam a escrita. A perda do conhecimento cultural de outras espécies, que não pode ser transmitido por escrita, áudio ou vídeo, é bem menos apreciada.

A morte dos sábios anciões de sociedades animais que guardam o conhecimento de rotas migratórias, técnicas de obter alimento, fontes de água, protocolos sociais, etc é permanente. E alimenta o vórtice de extinção de espécies que estamos nos esforçando muito para exterminar.

Como os elefantes. Na África, 70% dos elefantes de savana e 90% dos elefantes de floresta (que são outra espécie) foram mortos em 50 anos pelo seu marfim e para abrir espaço para a multiplicação das pessoas. Mais de 80% vivem hoje nos guetos das áreas protegidas, o que diz muito sobre o que funciona quando se trata de conservar biodiversidade.

Q, personagem de Star Trek: The New Generation adepto de provocações éticas, notaria que o discurso da sociobiodiversidade é um monopólio antropocêntrico que ignora a conservação das culturas de espécies não humanas e prefere valorizar “tradições” que matam, mutilam e escravizam as outras inteligências que aqui vivem.

É fácil encontrar imagens de nossa relação com estas espécies. Baleias e golfinhos mortos em festivais culturais, gorilas, chimpanzés e outros primos servindo de material para rituais sagrados e comida que é símbolo de identidade cultural, elefantes mortos pelo seu marfim e carne. E não faltam imagens do que fazemos com papagaios e seus parentes, que pagam por serem coloridos e inteligentes.

Temos matado outros humanos para comer e ter material de artesanato desde tempos remotos, às vezes em escala industrial. A escravidão foi usada em quase todas as civilizações durante quase toda a História. E até há pouco, pessoas “diferentes” eram adquiridas e exibidas como atrações de zoos humanos.

Não estranha que façamos o mesmo com outras espécies, por mais semelhantes a nós ou inteligentes que sejam. Ou quão civilizados nos consideremos.

Quem visita a Noruega encontra carne de baleia minke – espécie curiosa que interage com mergulhadores – à venda no supermercado. Mais de 850 mil macacos-prego, 300 mil papagaios e 200 mil araras são comidos por ano na Amazônia. Milhões de papagaios foram e são traficados como fazíamos com membros de nossa própria espécie. Ou ainda fazemos.

Há justificativas culturais e econômicas para tudo isso, algumas até racionais, mas a maioria na linha “outros fazem pior”. Por que se preocupar com milhões de bichos mortos na Amazônia se em um ano “de avanços” desmatamos “apenas” 5 mil km2?

Na ficção científica otimista, a senciência, a inteligência e a cultura, mais que a tecnologia, sempre foram a régua para diferenciar espécies que a ética e valores obrigam a proteger. Como a Horta.

O papagaio-cinzento (Psittacus erythacus) é uma das estrelas nos estudos de cognição animal e supera humanos em alguns testes. Foto: Fabio Olmos.

Vários episódios na franquia Star Trek envolvem escravos e a Federação fazendo o que se espera de gente civilizada, com finais mais ou menos felizes. Um dos mais interessantes é What Is Starfleet? na terceira temporada de Strange New Worlds (e a Entreprise com o capitão Pike, antecessor de Kirk).

O que o Capitão Kirk faria se encontrasse um papagaio com inteligência de uma criança de 4 anos engaiolado na casa de alguém? Ele deixaria o especismo de lado e teria a mesma reação se fosse um humano de 4 anos de idade?

Um alienígena que visitasse a Terra veria que somos dominantes (nós e nosso gado somos 95% da biomassa de mamíferos e mudamos a atmosfera!) e únicos na sofisticação de nossa linguagem, imaginação, arte e tecnologia.

Também veria humanos que criaram instituições sobre ética, virtude, bondade e o que é “certo” darem mais direitos a um feto anencefálico que a espécies que podem mostrar mais inteligência, emoção e empatia que muitos “humanos”.

Por dezenas (centenas?) de milhares de anos humanos viveram em grupos onde todos se conheciam e se achavam as pessoas de verdade, com símbolos, língua e rituais para marcar essa diferença.

O pé atrás inato com quem não é considerado exatamente gente faz sentido. Populações substituídas/absorvidas são tema comum na história da humanidade, como nas expansões Yamnaya, Bantu e Tupi.

Nossa espécie ainda vive o processo de incluir os não exatamente gente, sexo fraco, selvagens, bárbaros, infiéis, escravos, intocáveis e outros inferiores no mesmo grupo merecedor de humanidade e do direito à vida, liberdade e busca da felicidade das pessoas de verdade e dos eleitos.

O corvo-da-nova-caledônia (Corvus moneduloides) fabrica instrumentos e é considerado uma das aves mais inteligentes. Foto: Fabio Olmos.

Há espécies que souberam fazer isso. Cães evoluíram para ler e manipular emoções humanas e entraram para o círculo de quem é “gente”. Em uma pesquisa, 46% das entrevistadas, se tivessem que escolher entre quem morreria atropelado, preferiram salvar seu cão a um turista estrangeiro.

Ampliar o círculo e reconhecer que espécies com inteligência, empatia, curiosidade e humor merecem ao menos alguns direitos pode soar ingênuo quando repetimos os 1920-30 com autocratas fomentando divisões tribais.

Também há os que devem se contorcer quando equiparo papagaios engaiolados a crianças escravizadas e noto que uma baleia ou arara não está menos morta se abatida por razões culturais. Não muito tempo atrás também havia quem se contorcesse ao ouvir que pessoas de certas cores ou sexo deveriam ter os mesmos direitos que as pessoas de bem.

Mr. Spock e Q não estranhariam. O mecanismo psicológico que faz humanos se considerarem superiores é o mesmo do racismo, sexismo, misoginia e homofobia e vivemos tempos de covardia diante de questões desconfortáveis.

Para Mayr, um dos grandes biólogos evolutivos (e ornitólogo), as diferenças entre populações humanas, tabu para a maioria, não são guia para a igualdade. Esta deve ser baseada em valores éticos e não na identidade biológica, e abraçar a diversidade que é inerente à vida.

Somos éticos o suficiente? Há movimentos para dar status legal como pessoas não humanas aos grandes primatas e a Convenção para Espécies Migratórias aprovou ações integradas para a conservação das culturas das diferentes populações de chimpanzés, como já havia aprovado ações para clãs de cachalotes, que falam línguas diferentes.

Não tenho dúvida que a Federação daria status de pessoas (o não humanas seria desnecessário) aos Horta da ficção. E a primatas, papagaios, elefantes, baleias e outras espécies sencientes da vida real.

Papagaios apreendidos. Foto: Divulgação/Policia Federal

Escrevo após a comoção da morte do cão Orelha resultar numa atualização nas multas por crueldade animal. Como se trata de um cão, esse episódio gerou ação que milhares de casos muito piores de crueldade com outras espécies intelectualmente mais dotadas não conseguiram.

É um progresso, mas faltam melhorias na Lei de Crimes Ambientais e temas como o artesanato com partes de animais, justificado com desculpas culturais ou religiosos, precisam ser tratados.

Progresso é progresso e espera-se que os traficantes de animais, sempre os mesmos que são presos e liberados serialmente apesar da crueldade que praticam, devam ser tratados de forma mais dura que a leniência de sempre.

Pode ser otimismo em um Brasil de juízes que validam estupro de crianças usando razões culturais e vínculos afetivos que soam muito parecidas com as que justificam a crueldade contra animais. Ou em que o tráfico de animais, que extinguiu espécies de bicudos a ararinhas-azuis, é crime de pouco potencial ofensivo.

Deveriam passar um dia tratando filhotes de papagaio resgatados em um CETAS, participando das necrópsias dos que não sobrevivem e incinerando os mortos. Seria educativo.

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